The Caretaker - The Sublime Is Disappointingly Elusive
Por coincidência, todos os fantasmas do cinema o são desde o século XIX. Não existe quase ninguém que tenha virado alma penada em dias modernos, penar é muito 19th century. Então, a chance de você topar com um espírito hipster atormentado que curte Animal Collective é quase zero: fantasma, aquele de raiz mesmo, curte uma vibe mais pré-rock, sabe? Você acha que menininho do além relaxa com chillwave? Mas não mesmo! O menininho do além passa correndo pela casa e coloca para tocar é um vinilzinho gostoso, com os clássicos dos anos 20 (enquanto o dono da casa/protagonista do filme sai correndo, desesperado). Vinilzinho como os utilizados por James Leyland Kirby no seu mais novo e fascinante álbum,
An Empty Bliss Beyond This World [History Always Favours The Winners, 2011], uma viagem sonora e filosófica que assusta mais que o meninho do além e suas peraltices.
Kirby pensa muito em conceitos. Talvez por isso tenha
crítico que se revela claramente confundido com suas manifestações artísticas, insistindo que elas existem mais como idéia do que música propriamente, como se fosse possível desvencilhá-las. Quem vê a música com olhos puramente industriais, ou filtrados por um lente industrial, tende a pensar dessa maneira. Kirby, felizmente, não é desses: o que o inspira não é exatamente música mas o leva a fazer música. Exemplos: a inspiração para Caretaker surgiu ao assistir uma cena de Jack Nicholson em "O Iluminado" e o conceito do álbum mais recente é baseado num estudo que revelou a maior facilidade de acesso às memórias que os pacientes de Alzheimer possuem quando estas estão ligadas à música. Preenchimento sonoro num filme (cinema, arte, música), estudo médico (ciência, música) ou porcos (er, filosofia?, música): uma mente aberta gera arte também aberta.
Embora desperte curiosidade, não há porque perder tempo com detalhamentos do passo-a-passo prático de Kirby, em cada faixa, em cada trecho. É melhor deixar-se acreditar que os estalidos do vinil antigo podem ser um elemento percussivo proposital; que existem momentos compostos e tocados, outros só de reprodução per se; que a música se comporta do mesmo jeito que a memória daqueles pacientes com mal de Alzheimer, às vezes falha e cheia de lacunas (a partir de
"I Feel As If I Might Be Vanishing"), às vezes vibrante e cheia de cores (a bela sequência de três faixas, no início, e o final, com "The Sublime Is Disappointingly Elusive").
Analisado puramente como música, o álbum se estabelece como uma alternativa ao ambient, buscando opções numa roupagem radicalmente (quando ler, por favor, grite a palavra radicalmente) retrô. Analisando como conceito, à maneira que alguns críticos preferem fazer, o álbum também é plenamente bem sucedido, funcionado como uma exploração minuciosa do envelhecimento, da memória, da condição humana. E, como obra aberta,
An Empty Bliss... serve também à imagens particulares, pertencentes a cada ouvinte:
se apoiando numa linha frágil entre o francamente assustador e docemente melancólico, pode evocar a imagem de um Duke Ellington, lamentando por Javanette, no fundo do mar. Ou a imagem daquele menininho do além, que corre pra lá e pra cá, nos filmes: embora assustador, ele é só um fantasma. Ele é só um menininho.
Artista: The Caretaker
Álbum: An Empty Bliss Beyond The World
Origem: Inglaterra
Ano: 2011
Gênero: Ambient/Experimental
Escolhas do IN: "All You Are Going To Want To Do Is Get Back There", "Libet's Delay" e "The Sublime Is Disappointingly Elusive"
Pra quem gosta de: Coletânea Victrola Favorites, Duke Ellignton, Grouper