
Como o presente não anda muito inspirador, o jeito é voltar nossos ouvidos para o passado, por enquanto. E já que é pra voltar, que tal um dos tipos mais clichês da música? O artista-que-só-é-reconhecido-após-a-morte. O que é irônico no caso de Nick Drake é que, em vida, o artista não fez lá muita questão de reconhecimento público. Bem, essa afirmação é uma meia-verdade...
Alguns relatos contam que a indiferença geral em relação ao seus primeiros discos deixava Drake incomodado. Mas com "Pink Moon" (Island/Universal, 1972), a indiferença partia do próprio: a lenda diz que a fita master foi entregue no balcão da gravadora, num papel pardo, como se fosse uma fita demo de um artista iniciante. E para desespero do chefe Chris Blackwell (comandante da Island nos anos 70), que via grande potencial comercial no álbum, Drake não se importava com a promoção do álbum. Em alguns dos poucos shows da turnê, o artista nem mesmo mantinha contato visual com o público. Nick Drake morreu 2 anos depois, após overdose (acidental?) de antidepressivos, sem ver o impacto que causaria na música. Elliott Smith, Robert Smith e toda a família Smith (ha!) eram/são fãs declarados de Drake. Mas a procura pelo obra do trovador inglês cresceu realmente depois que a Volkswagen usou Pink Moon, a canção, como trilha sonora de um dos seus comerciais.
"Pink Moon", o disco, tem mesmo no seu DNA musical o "foda-se o mundo" que Drake desejava gritar. Se em "Bryter Layter" (de 1970), o antecessor, quase todas as faixas eram produções esmeiradas e repletas de instrumentos, dessa vez o compositor optou por trabalhar solitário. Em menos de meia hora, todas as emoções de um homem extramamente complexo são traduzidas da maneira mais simples possível: voz e violão. Somente na primeira faixa, a grande obra-prima de Drake, ouve-se um piano discreto, tocado pelo produtor John Wood. Ouve-se também um dos raros momentos em que o sol penetra na escuridão da poesia de Drake, que consegue perturbar o ouvinte com sua honestidade no jogo de palavras de Know e na auto-depreciativa Parasite, os momentos mais tensos do disco.
A melancolia de clássicos como Place To Be, Road e Things Behind The Sun são quase um convinte à auto flagelação: você sente o seu coração se despeçando em cada nota mas não consegue se separar dessas canções nunca mais. Mas não é culpa do compositor, que fez música desse jeito porque essa era sua condição natural. Nick Drake era tão sutil e elegante que quase nada era culpa dele, na verdade. Nem mesmo a sua morte, como alguns acreditam. Lembra que ele não queria que ninguém ouvisse o seu último trabalho? Então, não é culpa dele nem mesmo o fato do "Pink Moon" ser um clássico.
Nick Drake - Pink Moon - 100
Ano: 1972
Origem: Inglaterra
Gênero: Folk
IN Picks: Pink Moon, Parasite, Road
Pra quem gosta de: Elliott Smith, Van Morrisson, Bon Iver
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Bonde da Depressão
enviado por César M. em 30.3.09O Edmundo Coletivo
enviado por César M. em 29.3.09
Na teoria, era para a evolução filosófica levar a gente para longe do reducionismo. Na prática, o tempo passa e cada vez mais o cidadão corre para se adequar num personagem, além de forçar o aprisionamento alheio. E isso não se trata de descrença em pessoas-personagens, é exatamente o contrário: a maioria das pessoas quer que alguém diga a elas o que fazer (eu sei que esse tom crítico pode soar contraditório com o propósito do blog, mas eu não estou falando de colaboração).
Mesmo no minúsculo universo de leitores do IndieNation isso é perceptível. Certa classe processa mentalmente o meu gosto por certa banda como característica de uma outra classe, o que me coloca como inimigo do bem estar daquela pequena sociedade (a ponto de algumas pessoas se acharem no direito de destilar opiniões sobre sua vida pessoal, olha só!). A classe em que o IndieNation está aprisionada (especialmente a parte assinada por mim) pode ser chamada de hipster ou scenester, tanto faz... o que importa é a identificação mais fácil, assim como a gente joga com expressões para rotular música. Mesmo que isso represente uma traição ao movimento hipster (Força, Dado!), esse introdução serve para, três meses depois do lançamento, opinar sobre "Merriweather Post Pavilion" (Domino, 2009), o último trabalho da banda-rainha da nossa turminha bacana, o Animal Collective.
Como você pôde constatar no início da resenha, eu realmente acredito que pessoas se prendam a personagens. Como obrigação hipster, muita gente amou o álbum em questão, mas não consegue escutá-lo por inteiro mais de 2 ou 3 vezes. Muita gente amou a capa, mesma que a ilusão de óptica não iluda tanto assim. Todos esses elogios automáticos acabam soando irônicos, já que o barulho do ínicio do ano era sobre uma banda que tem como principal qualidade a habilidade de fugir de rótulos (ouvir "Feels", lançado há 4 anos, antes de "MPP" serve como prova da afirmação). O problema com o Animal Collective é que essa qualidade leva a outros defeitos. O pior de todos é torná-los inacessíveis, mesmo para um ouvinte mais acostumado com trangressões. Inacessibilidade que destrói o catálogo inicial do coletivo (uma ótima expressão hispter) e que tem incomodado menos nos dois álbuns mais recentes. "Strawberry Jam" tem até uma grande canção, Fireworks, mesmo que a banda se esforçe para disfarçar a sua vocação para as massas. No disco de 2007, pára por aí.
Em "MPP", o Animal Collective tenta dificultar o ouvinte com a repetição. Mas conseguiu o efeito contrário em My Girls, que se torna envolvente caso o ouvinte resista ao minuto e meio inicial de sintetizadores histéricos. Passando por prova de resistência ainda mais dura, que é sobreviver a audição até o final, David Portner e Noah Lennox dão uma dica do que aconteceria se banda fizesse música para ouvintes, e não para jornalistas: o samba-enredo-eletrônico Brotherspot surge glorioso, no apagar das luzes, para escrever os melhores 6 minutos de toda a discografia.
Numa alusão simplificada, assim como os estilistas fazem nos desfiles, o Animal Collective faz música brilhante na teoria, mas quase impraticável no dia a dia. Por isso, não se sinta triste por não gostar de "Merriweather Post Pavilion". Isso te inclue automaticamente na classe dos odiadores dos hipsters, o que vai te deixar ainda mais sub-culturalmente charmoso. Acredite.
Animal Collective - Merriweather Post Pavilion - 60
Ano: 2009
Origem: EUA
Gênero: Experimental/Eletrônico
IN Picks: Brotherspot
Pra quem gosta de: Dean Deacon, Fuck Buttons, Liars
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Chris Cornell f*deu a p*rra toda
enviado por Ana Paula Freitas em 15.3.09Eu não sou do tipo de pessoa que fala pouco. Mas vou guardar minha já exaustivamente mencionada prolixidade pra segunda de manhã no meu blog, porque vocês são bons entendedores (não que os leitores de lá não sejam, só que eles já estão acostumados a me verem reclamar de tudo, dai posso desenvolver minha decepção e rabugência em muitas linhas sem cansar ninguém com o que é óbvio).
Portanto, lhes deixo apenas a evidência da desgraça.
Lily Allen e Franz Ferdinand, os dois CDs novos (ou: eu sou prolixa e não ouço as mesmas coisas que vocês)
enviado por Ana Paula Freitas em 8.3.09- Não sei fazer essas resenhas pomposas e super cultas padrão Indienation, e quando me dei conta disso desisti inclusive do jornalismo musical;
Como quase não falo mais de música no meu blog-mãe, tinha deixado alguns textos esporádicos falando de novidades jovens e descompromissadas pros moleques do Move That Jukebox! (a gente pode dar link pra concorrência?). Agora que estamos de volta por aqui...
Estou aqui para ser a pessoa do Indienation que vocês vão adorar odiar. Eu não acredito em nada dessas coisas de indie, circuito alternativo, rock underground. Eu acredito que existe música, que eu tenho um bom gosto pra ela e que tem coisas que me agradam ou não. E por mais arrogante que isso soe, na prática acaba sendo uma posição muito mais democrática e tolerante, acredite.
Essa semana, eu ouvi o novo CD da Lily Allen, chamado "It's not you, it's me". Talvez, nesse ponto, seja interessante dizer que Lily Allen foi uma das coisas que mais ouvi ano passado, até enjoar. Então, para mim, ela se enquadra no gênero 'música leve e divertida da qual você acaba enjoando eventualmente'.
O novo disco não é tão divertido quanto aquele primeiro, e tem um problema que eu não considero tão sério mas algumas pessoas podem considerar, então acho prudente mencionar - com exceção de umas cinco faixas, ele parece todo uma música só.
É o tipo de coisa que irrita se você é como eu, e não tem costume de ver qual o nome das músicas que tá ouvindo - simplesmente baixa os discos, joga no MP3 player, escolhe um pra tocar e ouve. Porque você não consegue fazer referência à música que gosta, já que parece toda uma só e você não sabe exatamente se aquilo é a próxima faixa ou o bridge pro refrão.
Mas as letras da Lily continuam interessantes, pra quem gosta desse estilo 'conto meu dia-a-dia na letra' dela. Eu gosto muito da voz dela, e somando isso ao estilinho de música-pop-genérica, o conjunto todo acaba positivo. Se o outro merecia um 8, esse vai de 6,5. Mas ainda é 'música leve e divertida da qual você acaba enjoando eventualmente'. As mais legais são umas que ela mistura umas coisas nada a ver, e ela é muito boa nisso: 'Everyone's at it', sobre todo mundo tomando drogas, o que é interessante, 'Back to the start' que poderia ser do Scatman John e me parece falar de relacionamentos, e 'Not Fair', que é do velho-oeste, assim. A melhor é a última - sobre homens, também. Se estiver curioso, cheque os comentários.
Daí, depois (ou antes, provavelmente antes) ouvi o disco novo daqueles camaradas de Glasgow que foram conhecidos por re-re-revolucionar o pós-punk do UK há uns 4 anos. E numa boa, se você ouve música há muito tempo e de muito tempo como eu, saiba que é uma sensação esquisita descobrir que sua banda preferida tem só uns 10 anos.
Pois é. Eu me dei conta que poucas coisas que já ouvi me empolgam tanto quanto Franz Ferdinand. É diferente do que eu passei aos 12 com o Pearl Jam, aos 15 com o Los Hermanos. Franz Ferdinand me faz ter uma vontade incontrolável de dançar. E, não por acaso, mais ainda nesse disco novo, que tem um monte de sintetizadores.
O disco inteiro é excelente, e apesar de todo mundo (eu inclusive, aqui em cima) dizer que eles descambaram pro eletrônico, é rock. A única música que eles FODERAM se chama Can't Stop Feeling. Essa era uma b-side excelente, mas não sei porque eles fizeram um instrumental novo pra ela que parece um funk carioca ruim e colocaram no disco. Ficou uma merda, ainda mais pra quem conhece a versão original, então fodeu tudo. Essa é realmente dispensável, a ponto de pular a música mesmo. Mas o resto é muito bom, como os outros dois discos deles foram - com qualidade constante em todas as faixas.
As melhores sacadas estão em 'No You Girls', um discurso 'mulheres são de vênus, homens são de marte ok', 'Turn it on' porque é muito sexy, e finalmente, 'Twilight Omens' e 'Send him away' porque têm um quê onírico e psicodélico que deixam você com vontade de escutá-las usando drogas. Comentários são seus amigos.
É isso. E não sei ser sucinta. Nos vemos no Radiohead (ou como diz um amigo, fã mala do Los Hermanos, 'no show do Los Hermanos'). Ou, sendo mais roots, nos vemos no show do Kraftwerk, sei lá.


