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Enjoy The Silence


Numa época em que bandas já surgem no auge e desaparecem com velocidade proporcional à mediocridade do que vem a seguir, é bom ver uma banda respeitando o tempo, evoluindo gradativamente. Como os post-rockers do Balmorhea que, no mês passado, lançaram o seu terceiro álbum em três anos, "All Is Wild, All Is Silent" (Western Vinyl, 2009), prolificidade rara para quem carrega o rótulo.
A evolução não foi só qualitaviva, foi numérica também: Rob Lowe e Michael Muller, o dueto que de fato é o Balmorhea, contam agora com a ajuda de mais quatro músicos para explorar outras possibilidades. A companhia ajuda a dupla a cumprir o que o título promete, expandindo um som que era somente intimidade e conforto, para algo mais dramático e complexo. Settler, a estonteante abertura, já colhe os frutos da novidade e se move suavemente entre os gêneros preferidos de Lowe e Muller, se permitindo até dançar ao som de palmas e um violão de sangue latino. Mas o ponto alto do álbum fica nas mãos delicadas de Elegy e Rememberence, dois momentos de rara beleza. Elegy é mais econômica na duração e no aparato instrumental (é a única canção a contar somente com a formação original) mas não mede esforços para despedaçar o coração do ouvinte. Já Rememberence é épica. Mas um épico sutil, porque mesmo após tantas mudanças esse ainda é o gentil Balmorhea de "Rivers Arms". Para quem gosta de procurar conexões entre post-rock e cinema, pense nas trilhas de Enio Morricone como a grande inspiração para essa composição. Mais pro final, um pouco dos islandeses do Sigur Rós é sentido em Truth, canção carregada por um belíssimo encontro entre arranjo de cordas e piano.
"All Is Wild, All Is Silent" é relativamente despretensioso para o gênero, mas investe numa maior complexidade para crescer. E ao mesmo tempo em que busca ruptura, deixa a idéia original como ponto de partida para o contato com novos terrenos. Assim, caminhando sobre as próprias contradições, o Balmorhea procura se estabelecer como banda. Ao menos uma façanha, o (agora) sexteto já conseguiu: fizeram um disco de transição que presta.


Balmorhea - All Is Wild, All Is Silent - 80
Ano: 2009
Origem: EUA
Gênero: Post-Rock/Ambient/Americana
IN Picks: Rememberence, Settler, Coahuila
Pra quem gosta de: Sigur Rós, Great Lake Swimmers, Peter Broderick







BALMORHEA - REMEMBERENCE

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You'll Shit Bricks


Você já deve ter lido, em algum lugar, que a principal inspiração do Sonic Youth foi o Velvet Undergound. E então você põe os dois lado a lado e não consegue ver como X acabou gerando Y. Isso porque o elo entre esses dois dinossauros da música alternativa se mantém convenientemente escondido. Por recomendações da Organização Mundial de Saúde, provavelmente. A insanidade de "The Ascension" (Acute/99, 1981), segundo álbum de Glenn Branca (não, apesar do nome, não se trata de um transformista), pode não ser indicada para ouvidos sensíveis. Mas é o momento definitivo da no-wave e lição obrigatória de toda banda que surgiu a seguir carregando o rótulo de experimental.
Bateria, baixo e 4 guitarras hipnóticas (uma delas conduzida por Lee Ranaldo, futuro integrante do Sonic Youth): Branca precisou montar esse sexteto para traduzir em música uma brutalidade até então inédita na música. Mensurar o impacto do álbum no rock é fácil quando se percebe que, mesmo quase 30 anos depois, qualquer ouvinte se arrepia com o furacão de guitarras que se forma ao longo dessa difícil audição. Com a noção do poder transformador daquelas composições, Branca arrumou tudo de uma maneira que evidenciava ainda mais o carater transitório do álbum.
O lado A anda de mãos dadas com o post-punk e o kraut-rock, o que havia de mais moderno na música dos anos 70. Lesson n° 2, por exemplo, começa com guitarra e baixo que podem lembrar Joy Division ou Echo And The Bunnymen. Mas termina tragicamente, em centenas de colisões consecutivas. Mais tensão? The Spectacular Commodity consegue a proeza e torna o clima ainda mais sufocante. Mesmo diante de tanta confusão sonora, dá pra enxergar ali o nascimento do Sonic Youth e do post-rock de bandas como Godspeed You! Black Emperor. Já no lado B, Branca busca a ruptura total. E tudo fica ainda mais amedontrador. Light Field é uma tempestade de sensações, onde o rock chega perto do clássico usando o seu instrumento símbolo, a majestosa guitarra (quatro delas, pra ser mais exato). Depois de tanto extâse, o que esperar do faixa final senão catarse: The Ascension não precisa de uma palavra sequer para ilustrar a transcendência da alma, em 13 minutos de pura destruição sonora.
Glenn Branca é agora definitivamente um compositor clássico, com o devido reconhecimento acadêmico. E mesmo antes disso, quando suas sinfonias eram escritas para guitarras, a crítica se dividia ao tentar categorizar o trabalho de Branca. Com "The Ascension", a tarefa pode até parecer difícil... mas não é. Esse é um disco de ROCK. Daqueles impressionantes. Daqueles históricos.


Glenn Branca - The Ascension - 100
Ano: 1981
Origem: EUA
Gênero: No-Wave, Avant-Garde
IN Picks: The Ascension, Light Field, Lesson nº 2
Pra quem gosta de: Sonic Youth, DNA, Godspeed You! Black Emperor






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O Próximo Rei da Escócia


Eles são intensos. Eles são eufóricos. Eles são impecáveis. E assim como quase todas bandas do gênero, eles são genéricos, super-produzidos, quase banais. We Were Promised Jetpacks pode ser a next big thing porque reúne todas as características das next big things que surgiram em outras temporadas. Mas será que vai emplacar de novo?
Até que esses escoceses se esforçam para isso acontecer. Enfileirando hinos post-punk como se fosse uma tarefa das mais corriqueiras, a banda praticamente obriga o ouvinte a se posicionar. Quem já está com ouvido treinado, vai identificar facilmente em "These Four Walls" (FatCat Records, 2009) todos os truques que fizeram a fama de Bloc Party (primeiro álbum), Editors, Rakes, Arctic Monkeys, Snow Patrol e provavelmente vai se ofender. E é facil sentir as intenções do WWPJ já na primeira canção, It's Thunder And It's Lightining: tudo começa tenso e contido num riff qualquer roubado do Joy Division até explodir em guitarras hínicas conduzidas pela voz límpida de Adam Thompson. Quem decidir seguir em frente verá que os compatriotas do Frightened Rabbit, padrinhos oficiais, também aparecem como influência clara nos primeiros segundos de Ships With Holes Will Sink. This Is My House, This Is My Home, talvez o grande êxito artístico do álbum, foge um pouco da trucagem ao apostar em linhas mais facilmente encontradas no post-rock... Mas logo depois, estragam a boa impressão repetindo a idéia em Short Burts, outro rock mastodôntico do álbum. O papel de grande hit fica com Quiet Little Voices, rápida, tola e pegajosa, como a maioria dos grandes hits são.
O We Were Promised Jetpacks opta por seguir a apostila do new post-punk rentável, e sofre bastante com isso: consegue arrancar sorrisos sinceros do ouvinte mas insiste em tentativas frustradas de se estabelecer com truques manjados. O truque entra e a boa vontade vai embora. Apesar de tudo, pelos momentos de emoção genuína, vale ter paciência com os garotos. Finja que acredita que eles estão com a personalidade em formação e ganhe 50 minutos de hinos descartáveis.

We Were Promised Jetpacks - These Four Walls - 67
Ano: 2009
Origem: Escócia
Gênero: Post-Punk/Indie-Rock
IN Picks: This Is My House, This Is My Home, It's Thunder And It's Lightining
Pra quem gosta de: Editors, Frightened Rabbit, U2







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Indústrias Barsuk


Criticar falta de originalidade em 2009 é dar murro em ponta de faca. Dito isso, vamos ao fato: "Telekinesis!" (Merge, 2009) é a meia hora mais divertida do indie pop em 2009. Por isso, não importa que esse seja mais um disco do Death Cab For Cutie... ou do Nada Surf... Já pensou se todos os músicos resolvessem soar "originais" como o Animal Collective ou o intragável Fleet Foxes?
Não, não pense sobre o Juízo Final... Pense em coisas mais amenas, como parece fazer Michael Lerner, o homem que gravou todos os instrumentos desse álbum. Lerner é um cara empolgado e cheio de boas intenções, é fácil de notar. Esse entusiasmo evidente acaba entusiasmando o ouvinte por tabela e quebrando qualquer resistência relacionada a uma suposta falta de criatividade. A tutela de Chris Walla (ele mesmo, guitarrista do DCFC, que é para evitar comparações com qualquer outra banda), experiente produtor, ajudou o iniciante a preservar a espontaneidade das suas composições na gravação e o saldo é de 11 canções rápidas e igualmente cativantes.
Talvez a melodia imediata de Coast Of Carolina seja a sua preferida. Ou se a sua praia for a das baladas acústicas, é provável que você fique com I Saw Lightning por um bom tempo no repeat. Mais rapidez no chicletão Tokyo, pra quem quiser. Mais tensão em Calling All Doctors, a canção mais difícil e elaborada do álbum, pra quem gosta de desafios. Enfim, não há motivos para aborrecimento com o Telekinesis... Como também existem pessoas que gostam de se aborrecer ouvindo música, não dá pra dizer que esse é um disco para qualquer um.
Michael Lerner faz sua parte, transformando sua admiração em combustível para um música cheia de vitalidade e honestidade, sem precisar reinventar a roda. Talvez por isso ninguém vá dizer, em abril, que esse é melhor disco do ano, como andaram fazendo lá em janeiro (!). Mas no final do ano, volta aqui e me diz qual foi o disco que você mais ouviu em 2009... "Merriwather Post Pavillion" (Animal Collective)? "Bromst" (Dan Deacon)? Eu aposto em "Telekinesis!".


Telekinesis - Telekinesis! - 80
Ano: 2009
Origem: EUA
Gênero: Indie Pop, Power Pop
IN Picks: Coast Of Carolina, I Saw Lightning, Tokyo
Pra quem gosta de: Death Cab For Cutie, Nada Surf, Brendan Benson









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