
Fizeram tanto esforço para dissecar e consumir as tais tribos urbanas (desculpem o termo chulo) que estamos caminhando para uma era em que elas não existirão mais. A redes sociais ajudam bastante nesse processo de descaracterização geral que, em tese, é uma evolução sadia. Quando você ouve o rei punk Iggy Pop dizendo que rock é uma idiotice e Chris Cornell, ex-arrastador de correntes no slowmetal Soundgarden, investindo num charm sensual em sua nova empreitada solo, fica claro que a música também não escapou dessa promiscuidade cultural.
No próximo mês, Rostam Batmanglij (do Vampire Weekend) e Wes Miles (do Ra Ra Riot), lançam "LP" (XL Recordings, 2009), primeiro álbum do Discovery, uma colaboração que só poderia ter sido concebida nessa era mista. As influências do afro-beat e do indie-pop clássico que dominam os álbuns de estréia das bandas originais são descartadas logo de ínicio: Orange Shirt é um R&B indecente, desses que Nelly, Beyoncé e Rihanna fazem aos montes. Causa estranheza, mas há sempre a possibilidade de tudo não passar de uma grande piada. Afinal, a música pop hoje é quase toda feita por humoristas e se levar a sério é completamente semana passada. Por outro lado, há também a possibilidade de ninguém achar a mínima graça. Porém, é improvável. Tem tanta gente séria falando sério sobre a seriedade dos discos da Britney Spears que Orange Shirt tem tudo para ser o blog hit do inverno...
A segunda canção, Osaka Loop Line, começa e as batidas R&B se assanham novamente. Então não é uma piada, o Discovery é realmente uma investigação profunda sobre a música comercial pós-2000? Pode ser. Pode ser também que a piada seja mais longa do que o esperado. Um remix-Ace-Of-Base de Can You Tell? (originalmente no debut do Ra Ra Riot, aqui renomeada como Can You Discover?) reforça a tese. A voz feminina (Angel Deradoorian, do Dirty Projectors) processada em I Wanna Be Your Boyfriend torna tudo ainda mais genérico.
E aí fica claro o grande problema do projeto: assim como o Bonde do Rolê, ao se aproximar demais do objeto de estudo, o Discovery não consegue se distinguir dele. Nem uma recriação synth pop da fantástica I Want You Back (Jackson 5) consegue impedir o fracasso. Sério, há uma versão de I Want You Back, com Auto Tune, sintetizadores e tudo mais. E esses são os únicos minutos de real diversão provocados pelo álbum. Wes Miles e Rostam Batmanglij esqueceram que metalinguagem do lixo ainda é lixo.
Discovery - LP - 41
Ano: 2009
Origem: EUA
Gênero: R&B/Synth-Pop/Eletrônico
IN Picks: I Want You Back, Can You Discover?
Pra quem gosta de: Te Dou um Dado?, Fashion Rio e São Paulo Fashion Week
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Descobrindo o Óbvio
enviado por César M. em 11.6.09Eternamente Jovem
enviado por César M. em 5.6.09
Avaliações musicais seriam mais sinceras se os críticos fossem vendados, como num famoso quadro da TV, e só tivessem o direito de dizer "sim" ou "não". E como nesse caso, ele não estaria trocando uma TV 42' por um pacote de Tang Sabor Abacaxi, não haveria prejuízo para ninguém. Mas não é e não tem como ser assim. Por isso, quem espera (sentado) pela re-re-revolução do Sonic Youth está perdoado. E tem até um série de álbuns exclusivos para matar a sede de experimentação e escapismo. No Sonic Youth atual, tudo é direto ao ponto. Quase inteiramente formado por senhores com mais de 50 anos, o quinteto americano resolveu colocar na rua os discos que deveria ter lançado após o sucesso de "Dirty", quando estavam na casa dos 30. Se "Rather Ripped" não completou a missão satisfatoriamente, "The Eternal" (Matador, 2009) é plenamente capaz de atingir o objetivo.
Se estivéssemos mesmo naquele quadro, dava para jurar que, por trás dos primeiros riffs manjados e irresistíveis de Sacred Trickster, há uma empolgada banda iniciante. Mas aí a inconfundível voz preguiçosa de Kim Gordon (e seus incríveis 54 anos) não deixa dúvidas pairando: são eles, em grande forma, outra vez. Anti-Orgasm chega tão rápido e tão inconsequentemente juvenil que pode até fazer o participante hesitar outra vez. Enquanto se revezam na rebeldia de versos como "Do you under...stand the problem?/Anti-war is/Anti-orgasm", Thurston Moore e Gordon (casados desde 1984) propõe um ménage à trois ao ouvinte. O "UH! UH! UH! UH! UH!" que completa os versos me faz deduzir que eles gostam de uma boa selvageria...
A canção chega ao ápice numa trovoada de bateria e distorção, e então é hora de dividir um cigarrinho, enquanto as insinuantes guitarras do epílogo desfilam elegância. Será bom pra você, nem precisa perguntar. E como é bom, também, ouvir um simples la-la-la num disco do Sonic Youth. Acontece em Leaky Lifeboat, canção que abre a fase mais melódica do álbum. Antenna, em seguida, é lisérgica e traz no belíssimo refrão uma certa nostalgia anos 90. Para compor melhor o clima, a quase pop What We Know é impedida de explodir pelas baquetas certeiras de Steve Shelley.
Quando Calming The Snake aparece carregando melodia oitentista e vocal gritado, o álbum volta à impetuosidade inicial. Esqueça o título cômico e se divirta com Kim Gordon quase perdendo o ar no microfone. Na faixa seguinte quem se destaca é o marido, afinal, um casal tem sempre que dividir as tarefas. No instrumental, nada muito diferente do que se ouviu até agora. Em Poison Arrow, a linha melódica dos vocais é o real destaque, simplesmente matadora. Gordon tenta repetir o êxito em Malibus Gas Station, mas com a ajuda de uma banda furiosa fica fácil demais. Lembra Incinerate, single de "Rather Ripped", de uma maneira bem mais raivosa.
Thunderclap (For Bobby Pyn) e No Way mantém o saldo positivo de Thurston Moore sem arriscar muito. A homenagem ao Germs, na primeira, fica só no título: o Sonic Youth continua investindo em "rock alternativo", para usar a mesma expressão da época emulada aqui. Lee Renaldo aparece novamente, quase no fim, para deixar a incrível Walking Blues, um country elétrico que traz a lembrança inevitável de Neil Young. No final, todo mundo pode se juntar: os fãs contrariados ainda à procura de aventura, os incontrariáveis e... quem mais queira chegar, porque Massage The History é o Sonic Youth em excelência: violões e delicadeza raras na discografia da banda (é difícil lembrar de alguma canção em que o violão tenha papel tão destacado quanto nessa faixa) se revezam com guitarras celestiais na tarefa de acelerar o coração do ouvinte. Um final épico para um início fulminante.
Acusar o Sonic Youth de superficialidade por "The Eternal" é cinismo. Uma banda com 28 anos de destruição sonora entregando um álbum impetuoso (e divertido) como esse é motivo para comemoração. É bom saber que eles ainda sabem escrever canções pop. Se, mesmo assim, o conceito do álbum ainda parecer tolo, finja que está no quadro citado no início da resenha. Feche os olhos e pense estar ouvindo a empolgação de uma banda iniciante. Não é uma troca absurda: o Sonic Youth está realmente se sentindo como uma.
Sonic Youth - The Eternal - 82
Ano: 2009
Origem: EUA
Gênero: Indie-Rock/Experimental
IN Picks: Massage The History, Anti-Orgasm, Walking Blues
Pra quem gosta de: Dinosaur Jr., No Age, Blood On The Wall
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