A Felicidade é o Amor
enviado por César M. em 30.8.09
Charles Spearin. Um senhor bigodudo aparentemente indefeso que criou dois imensos monstros sonoros nessa década, Broken Social Scene e Do Make Say Think. E ainda teve o sensacional K.C. Accidental, na década passada e com rima de brinde. Você não ouviria sem pestanejar qualquer coisa que alguém com esse currículo fizesse? Sim, eu respondo. Até se fosse um disco conceito baseado na idéia absurda de entrevistar os vizinhos questionando sobre o significado da felicidade e depois musicar todos esses depoimentos. Pois isto é "The Happiness Project" [Arts & Crafts, 2009], primeiro álbum solo do multi-instrumentista canadense.
Fazer música acompanhar voz não é exatamente a coisa mais inovadora do universo. Mas a junção dos depoimentos mixados a um elegante instrumental jazzy dá ao álbum um toque bastante peculiar. Steve Reich em "Different Trains" talvez seja o exemplo mais similar ao que se encontra aqui, embora bem mais experimental. Ou o encontro da tabla com a voz no som do Asa Chung & Junray (mais precisamente, na desnorteante Hana). Mrs. Morris, a primeira entrevista-canção, mostra como a idéia funciona na prática: cada sílaba pronunciada pela senhora que acredita que "felicidade é amor" é uma sílaba pronunciada pelo saxofone; do outro lado, o entrevistador é desafiado pelo baixo. Se o ouvinte entrar no jogo logo na primeira faixa, não tem mais como desistir. Anna e menina Vittoria parecem cantar nas duas incrivelmente acessíveis faixas seguintes. A mais crescida tem sua fala espertamente associada aos ataques de metais de uma banda de ska. Já a indecisão da fala infantil dá margem as intervenções clássicas do bebop, que desembocam num inusitado encerramento ao som de surf-music. Spearin enfileira três faixas surpreendentemente divertidas em sequência, talvez tentando quebrar a resistência que o conceito possa criar no ouvinte.
E logo depois nos apresenta Vanessa, surda desde o dia em que nasceu. "O que ela ouve?" é a pergunta que mais fazem, conta Vanessa. Ela não sabia responder, por não ter nenhuma "experiência sonora" para comparar. Como Vanessa, a gente também não ouve nada. De repente, um onda meio caótica rompe a faixa. E aí a entrevistada explica que agora tem um implante eletrônico que faz o cérebro voltar a interpretar sons. A faixa também volta a ser música, quando a frase "All of a sudden I felt my body moving with something" incita o levante de um luxoso arranjo de cordas. Quando Vanessa conta que volta a um mundo de silêncio quando a bateria do implante acaba, o ouvinte volta com ela. Ao interpretar o depoimento com instrumentos, a faixa se torna uma junção rematada das sensações com a música, o ponto onde o experimento de Spearin chega a perfeição.
Grandes ou pequenas histórias se tranformam sempre em grande música: Ondine (filha de Spearin) nem tem tanto tempo de vida assim para ter muito o que dizer, enquanto Mr. Growie carrega anos de experiência (e lendas) nas costas. Growie gera uma investida em post-rock, Ondine faz pai pedir ajuda as cordas novamente, outros dois grandes momentos do álbum. Mrs. Morris volta para encerrar o álbum e, enquanto a senhora caribenha quase discursa sobre felicidade, um sorriso inevitável vai surgir no seu rosto. Ao final, fica claro que o disco não é uma expêriencia sonora (até porque, como já foi dito, isso já foi experimentado muito antes). "The Happiness Project" é uma experiência terapêutica.
Charles Spearin - The Happiness Project - 80
Ano: 2009
Origem: Canadá
Gênero: Jazz/Experimental
IN Picks: Vanessa, Vittoria, Anna
Pra quem gosta de: Steve Reich, Harry Partch, Pedro Bial e o Filtro Solar :D
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Tamo Junto
enviado por César M. em 25.8.09
Mark Linkous nunca foi muito de trabalhar sozinho. Embora, na prática, o Sparklehorse seja um veículo individual, Linkous tem procurado se cercar de boas companhias na confecção dos seus álbuns, principalmente após "It's Wonderful Life" (lançado em 2001, cheio de participações especiais). E a companhia não é somente dos músicos que transformam o Sparklehorse em banda: Tom Waits, PJ Harvey e Steven Drozd (do Flaming Lips) são alguns nomes que têm alguma participação nos álbuns do projeto. Mas em 2009, Linkous resolveu levar a ideia mais adiante com dois álbuns de autoria compartilhada.
"In The Fishtank 15" é creditado a uma parceria do Sparklehorse com o maestro digital Christian Fennesz. Décimo quinto filho do bem-sucedido projeto da gravadora alemã Konkurrent, o LP consegue atingir o efeito imaginado: Linkous ajuda a música de Fennesz a transitar num terreno mais orgânico (violão e voz, ocasional) e Fennesz tranforma a tendência escapista do Sparklehorse em convicção. Mesmo assim, dá para perceber qual mão pesou mais em cada uma das 7 faixas. Em duas, nem é preciso fazer esforço, já que os nomes são parte do título: Mark's Guitar Piece, uma bela canção de ninar com maquinária eletrônica discreta e Christian's Guitar Piece, a canção derradeira, essa sem artifícios tecnológicos (Fennesz estava com as mãos ocupadas, provavelmente). Music Box Of Snakes e If My Heart se destacam como os dois momentos em que a parceria parece mais intensa. E embora Goodnight Sweetheart não soasse muito deslocada em "Good Morning Spider", o maior atrativo é a programação do laptop de Christian Fennesz.
Mesmo tendo um caratér meio improvisado (os músicos tem apenas dois dias no estúdio) jogando contra, o volume 15 da colêtanea é de uma riqueza surpreendente. Ajudou o fato dos dois artistas já terem trabalhado juntos em álbuns do Sparklehorse. Mas o que conta mesmo é talento de Fennesz e Linkous: jamais poderia dar errado o encontro de um dos artistas mais interessantes da música eletrônica experimental com... com Mark Linkous, simplesmente, sem mais apresentações desnecessárias.
E se colaboração parece uma idéia fixa na cabeça de Linkous, "Dark Night Of The Soul" trouxe logo 9 artistas diferentes para diversificar os tons vocais. Wayne Coyne abre uma primeira fase psicodélica ensinando boas lições na ótima Revenge, melhor que qualquer faixa no último álbum do Flaming Lips. Gruff Rhys e Jason Lyte também não ficam longe do material que compõe o trabalho de suas bandas originais (para quem não reconheceu, Super Furry Animals e Grandaddy, respectivamente) com boas doses de psicodelismo pop em Just War e Jaykub.
O disco inicia um momento mais pé-no-chão com Julian Casablancas trazendo de volta as melodias retardadas do Strokes na divertida Little Girl. A faixa é tão tipicamente Strokes que pode servir para matar a saudade dos fãs que já vão completar cinco anos sem nenhum material inédito do quinteto nova-iorquino. Black Francis e Iggy Pop povoam o ambiente com guitarras e distorção, com destaque absoluto para "Pain", rock nervoso defendido com bravura pelo véio punk (a lenda diz que essa faixa seria a responsável pelo não-lançamento da parte musical do projeto).
James Marcer repete Wayne Coyne em Star Eyes (I Can Catch It) e repete o Shins em Insane Lullaby, que cresce sobre camadas de programação eletrônica pesada. Embora a primeira seja mais palatável, a segunda (mais trabalhosa) tem efeito mais duradouro. Nina Persson, em seguida, participa das duas canções mais convencionais do álbum: Daddy's Gone, alt-country anos 90, e The Man Who Played God, mais A Camp do que Cardigans. Vic Chesnutt fecha o álbum e traz de volta o psicodelismo, também com duas faixas. A melhor é a faixa-título, onde a mão de Danger Mouse parece ter pesado mais. A melodia traz a lembrança do hip-hop mafioso do Gnarls Barkley, mesmo sem a voz marcante do rapper Cee-Lo.
No ínicio do ano, quando a história do álbum começou a ganhar a rede, especulou-se que o veto da EMI não passava de estratégia comercial. Mas até agora, as únicas cópias vendidas de "Dark Night Of The Soul" foram aquelas da tiragem limitada, rechaçando o boato de golpe. Nos tempos atuais, felizmente, vetos de gravadora não fazem mais tantos estragos como antigamente. Graças ao milagre da compressão de aúdio, o lado negro da alma de Linkous felizmente conheceu a luz.
Sparklehorse + Fennesz - In The Fishtank 15 - 75Ano: 2009
Origem: EUA/Áustria
Gênero: IDM/Eletrônica
IN Picks: Music Box Of Snakes, Christian's Guitar Piece, If My Heart
Pra quem gosta de: Apparat, Boards Of Canada, Sparklehorse
Danger Mouse & Sparklehorse - Dark Night Of The Soul - 88Ano: 2009
Origem: EUA
Gênero: Neo-Psychedelia
IN Picks: Revenge, Little Girl, Pain
Pra quem gosta de: Flaming Lips, Grandaddy, Mercury Rev
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O Problema com a Perfeição
enviado por César M. em 19.8.09
"Heartbeat Radio" [Rounder, 2009] é a volta do cantor/compositor norueguês Sondre Lerche, dois anos depois do lançamento da trilha sonora de "Dan In Real Life" ("traduzido" no Brasil como "Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada"), composta inteiramente por ele. Na faixa-título, Lerche (agora radicado no Brooklyn, NY) reclama da perfeição das rádios. Porém, a principal característica do novo trabalho contradiz o ainda jovem artista. Os arranjos límpidos e grandiosos, a voz que não falha nunca, as melodias descaradamente ensolaradas... todos os detalhes de "Heartbeat Radio" foram pensados para atingir a perfeição pop.
O prólogo da resenha é mais provocação. É obvio que existem canções pops e canções pop. E é óbvio, também, que o tipo de música que deixa Lerche "com náuseas" não é exatamente o mesmo que é apresentado no seu novo disco. Então, não existe contradição, de fato. Um pouco de ressentimento, talvez. Lerche deve pensar: "Parte da crítica me adora. Até o Elvis Costello me adora. O rádio deveria me adorar também". Na verdade, qualquer um que tem a oportunidade de ouvir um disco tão acessível quanto este deve se perguntar: "Por que os veículos de comunicação preferem o outro tipo de canção pop?" Bem, todo mundo sabe o porquê... A gente só se pergunta para deixar a injustiça no ar mais uma vez.
Deixando as questão comerciais de lado, vamos a questão musical: "Heartbeat Radio" é um disco muito mais leve que "Phantom Punch", o útlimo álbum não-encomendado do compositor. Mais leve porque larga as guitarras. Porém, trata-se de um trabalho muito mais ambicioso. Essa percepção pega o ouvinte em Good Luck e seu arranjo de cordas luxuoso para não largar mais. Embora não deixe muitas arestas, Lerche cresce quando é mais contido: I Cannot Let You Go e I Guees It's Gonna Rain Today se destacam porque deixam a melodia em primeiro plano. Na segunda, as cordas e metais surgem com muito mais delicadeza, deixando a melodia inspirada em Lennon & McCartney (fonte em que Pionner bebe litros de inspiração também) brilhar com mais intensidade.
Após a exposição conquistada no cinema, Sondre Lerche sentiu que essa é a hora de ampliar seu público. Visto que a sua música, estruturalmente, continua a mesma, a carga caiu sobre a produção, orientada para tornar o trabalho do ouvinte (ainda) mais fácil. E ele sabe que não é isso o que sensibiliza DJs.
Sondre Lerche - Heartbeat Radio - 69
Ano: 2009
Origem: EUA/Noruega
Gênero: Chamber Pop
IN Picks: I Cannot Let You Go, I Guess It's Gonna Rain Today, Heartbeat Radio
Pra quem gosta de: Prefab Sprout, Andrew Bird, Alfie
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Legendary
enviado por César M. em 18.8.09via @likeapisces
Melhores da Década
enviado por César M. em 17.8.09- Estamos em agosto, mas já tem publicação elegendo aos melhores da década (aqui e aqui também... a segunda é bem esquisita). É uma idéia que eu estou querendo pôr em prática desde o meio do ano, mas acho melhor esperar o ano chegar no seu décimo mês, pelo menos. Mas já tenho uma lista com as melhores músicas da década, mesmo não tendo decidido quantas vão entrar. As 500 do Pitchfork me parecem um exagero, então eu devo ficar com 200, no máximo. Discos, serão 50 ou 100. Estou chamando a galere que já escreveu no blog para cada um fazer a sua própria escolha.
- Aquela lista com os 5 melhores de cada ano vai subir no telhado. Como parou no ano 2000, é provável que todos os álbuns estejam também na lista de melhores da década. As idéia de eleger os melhores álbuns dos anos 70, segundo o IndieNation, continua de pé.
- Usem os comentários desse post para votar nos seus 5 discos preferidos da década. O link fica fixado na barra lateral durante a votação. Para ajudar, vou colocar todos os artistas que estão na lista do IndieNation de melhores faixas. Mas lembre-se, o pedido é para você escolher os 5 MELHORES ÁLBUNS da década!
Aberfeldy - Acid House Kings - Akron/Family - American Analog Set - Andrew Bird - Animal Collective - Annuals - A
É só apertar em (Pop-Up) e escolher o seu álbum favorito.
Little Joy/ Adam Green/ The Dead Trees @ Fundição - Rio
enviado por César M. em 16.8.09Sexta na Lapa, vocês sabem, rola de tudo. Não é como antigamente: está tudo bem mais vigiado, os bares se sofisticaram, novas moradores chegando em grande volume... mas ainda assim dá para ter uma boa visão do comportamento de um adulto de até 35 anos. No palco da Fundição Progresso, na última sexta, três atrações relacionadas mas radicalmente diferentes provaram a fama "zoológica" do local.
A relação entre elas é a seguinte: Adam Green teve auxílio do Dead Trees, cujo baixista (veio disfarçado?) auxilia o Little Joy. Feita a relação, vamos as espécies:

Como acontece com aquele pessoal sentado na grama com garrafas de vinho, a apresentação de Adam Green foi divertidissima... para ele! Usando maquiagem borrada nos olhos e dançando como se o seu cérebro não tivesse se desenvolvido na mesma proporção da sua falta de noção, Green não conseguiu angariar muita simpatia numa platéia que esperava pela simplicidade blasé de Amarante, Binki e Moretti. As muitas risadas que surgiram durante a sua aparição bombástica foram minguando durante o show que reuniu algumas das composições mais festejadas dos seus cinco álbuns solo. A esmagadora maioria sequer sabia quem era a figura curiosa em cima do palco, mas alguns poucos presentes chegaram a arriscar uma cantoria em conjunto. Poucos mesmo. Uns dois ou três.
Jessica (aquela em homenagem a Jessica Simpson) e Tropical Island foram os destaques, com direito a citação do "Baby, I love you" de Caetano. Porém, mesmo quem já saiu de casa esperando algo incomum do nosso adorável Iggy-Pop-com-leve-grau-de-retardamento, pode ter achado as interpretações um tanto acima do tom. Pouco popular e muito espalhafatoso, Adam Green se divertiu bastante mas divertiu pouco.

Embora tenha agradado muita mais a platéia reservada a atração principal, ficou claro que, entre as três opções, o Dead Trees era a que menos tinha a oferecer. Logo no ínicio, os já famosos problemas no som da Fundição Progresso interromperam o show do quarteto por alguns minutos. De volta, o vocalista abre a camisa e o que ele veste por baixo? Se segure na cadeira, você não vai acreditar: uma camisa do Brasil! Inacreditável de tão original. A camisa era a número 2, do não muito querido Maicon. O vocalista gritou duas vezes "Maicon! Maicon" e, em consequência da baixa popularidade do lateral direito, quem não viu a camisa pediu um moonwalk. O show? A banda apresentou um setlist agradável, algo como um Death-Cab-For-Cutie-para-machos, carregado pelas guitarras de sotaque inglês dos anos 60 (via Oasis). Não impressionaram, tampouco comprometeram.
Toda a histeria dos show dos Hermanos se repetiu no show do Little Joy, mas em formato mini. Até os pequenos detalhes do ritual fanático apareceram timidamente, como os gritos de Pierrot e a serpentina reservada para Todo Carnaval Tem Seu Fim. Se fala muito em recomeço, mas a sombra hermânica ainda paira sobre Rodrigo Amarante.
Com a Fundição finalmente cheia, o simpático trio (acompanhado do gigante Matt Romano na bateria, além do guitarista e baixista do Dead Trees) entrou no palco com No One's Better Sake, uma das divertidas canções de verão do único álbum do projeto. Entre elas, o Little Joy apresentou algumas (fracas) composições recentes, privilegiando rock clássico em detrimento do pop ensolarado que deu certo no primeiro álbum. Fora do repertório próprio, Binki Shapiro defendeu Midnight Voyage (The Mamas & The Papas) e Rodrigo Amarante foi de Gilberto Gil (Procissão).
Na primeira parte, destaque para uma hipnotizante Binki no vocal em Unattainable e o hit mezzo-Strokes-mezzo-Hermanos Keep Me In Mind. This Time Around também empolgou, principalmente na sua incompreensível passagem em português, dividida pelo casal Shapiro e Moretti. Voltando do bis ao som de Último Romance (cantada pela platéia), um Amarante solitário apresentou Evaporar e ao lado de todos os músicos que se apresentaram no dia, tocou o sucesso Brand New Start.
No mesmo clima pacífico do álbum, o show caminhou sem maiores percalços para agradar qualquer um que estivesse naquela região na noite de sexta-feira: o junkie, o playboy, o universitário, o blogueiro, o padre... Que essas horas agradáveis sirvam para mostrar para Amarante & Moretti que o Little Joy não deve ir além do conceito que carrega já no nome.
- Fotos colhidas no Flickr de Leo Neves e Karina Yamane.
Pegando Uma Cor
enviado por César M. em 9.8.09
Vida de queridinhos da crítica não é assim tão fácil. O HEALTH, que lançou seu álbum auto-intitulado há dois anos com uma cota farta de elogios, tem agora uma matilha de lobos à espera de um tropeço. Confiando no seu taco, o quarteto californiano chega ao segundo semestre de 2009 com uma versão mais encorpada do seu fragmentismo pós-Boredoms em "Get Color" (Lovepump United, 2009).
No conta final, o novo trabalho tem quatro minutos a mais e duas faixas a menos que o anterior. Com excessão da fantástica Perfect Skin, nenhuma faixa de "HEALTH" chegava muito além dos três minutos e meio. "Get Color", por sua vez, traz composições mais longas, sinal de que houve empenho na intenção de torná-las mais harmoniosas. Mesmo que a ruidosa In Heat teime em dizer o contrário, o já bem sucedido single Die Slow confirma a suposição. A primeira faixa mantém os ataques percussivos e a distorção descontrolada que deram as cartas no primeiro álbum. A segunda, mais descontraída (nos termos do HEALTH), surfa na onda da boa recepção de "HEALTH//DISCO", coleção de remixes lançada no ano passado, abusando de sintetizadores. Dá pra continuar no jogo da bipolaridade usando como exemplo as duas faixas seguintes: Nice Girls é comandada pela faceta mais violenta do HEALTH. Já a impressionante Death +, mesmo longe da normalidade, recorre ao lado mais dançante do math-rock lembrando vagamente Atlas, do Battles.
Mostrando disposição incomum, o álbum continua enfileirando momentos de pura catarse, com destaque para as duas últimas faixas. Primeiro, a monumental We Are Water coloca o ouvinte na pista de dança do Belzebu, quando sua cadência rítmica frenética chega a níveis insanos. Após o apocalipse, a climática In Violent surpreende outra vez dando-se ao luxo de deixar de lado a poderosa máquina percussiva que tem a disposição. As nove audaciosas composições de "Get Color" mostram que Duzsik, BJ Miller, John Famiglietti e Jupiter Keyes não só saíram ilesos da cilada em que se meteram com sua corajosa estréia. Eles pavimentaram um caminho para ir além, o caminho de uma banda sem limites. E é exatamente disso que a música está precisando agora.
HEALTH - Get Color - 89
Ano: 2009
Origem: EUA
Gênero: Experimental/Noise
IN Picks: We Are Water, Death+, Die Slow
Pra quem gosta de: No Age, Battles, Liars
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É reconfortante e assustador...
enviado por César M. em 7.8.09... quando você percebe o quanto você é pequeno. Eu sei, é importante se valorizar. Sei também nosso próprio instinto de sobrevivência alimenta nossa falsa impressão de que nós somos muito grandes. Mas não somos. Cada um de nós é somente mais um. E por perceber isso, agora eu me sinto completamente superior a todos vocês, seus losers sem cultura!
Baixando o Pinto
enviado por César M. em 6.8.09
Com muito carinho, gostaria de introduzi-los (1) ao Pinto, banda de um homem só comandada pelo sueco Andreas (siga a lógica: banda de homem só, homem de um nome só). O nome pode parecer atrevido para nós, que falamos português. Porém, o nome inusitado faz todo o sentido, afinal na Suécia tudo é a maior Suécia (2). No seu site oficial, Andreas diz que "o Pinto cresceu (3) a partir de sementes de frustração e se transformou numa delicada flor de radiante música pop". Não se sabe muito sobre as durezas (4) enfrentadas pelo compositor, mas a frase deve ter um fundo de verdade, pelo menos na segunda parte: "Hook Me Up" (Krusty Still, 2007) segue mesmo a tradição da forte cena indie pop local.
De cara, o Pinto põe pra fora (5) suas influências. Usando as palavras do próprio novamente, o Pinto soa como "um cruzamento entre ABBA e Nick Drake". O ABBA é a instituição máxima da música na Suécia, assim como o Roberto Carlos, no Brasil. Sendo assim, qualquer sueco usa o exemplo para explicar que faz música pop. Então junte música pop, simplesmente, com Nick Drake (algo da sua voz característica, violão no centro...) para ver que o tal cruzamento pode ocorrer fora da cabeça de um cara meio gozadinho (6). Curiosamente, quando deixa a paixão pelo trovador inglês à mostra é o que o Pinto se torna mais imponente (7): What Is A Liar é tão bonita que chega a machucar por dentro (8).
Suecos, todos sabem, são ensinados a escrever melodias já na creche e com Andreas não poderia ser diferente: Iron & Rust, dueto com a cantora folk Anna Järvinen, mostra que o Pinto está afiado (9) no assunto. Em outros destaques como We Breathe Too Much e This Picture Needs A Fame, Andreas lembra o projeto paralelo de Mac McCaughan, o Portastatic. Há também uma inevitável comparação com Robert Pollard, não só pela curta duração das canções: na melosa (10) I Belong To You é possível ver o velho professor no microfone. O problema do Pinto é que às vezes ele é muito cabeçudo (11): as idéias repetidas fazem algumas canções da parte final perderem seu efeito, como a tola Hard Inside The Heart.
Se você parar para contar, verá que foram citados cinco destaques positivos e apenas um negativo. O saldo é de 5 contra 1 (12)! Então libere-se de conceitos medievais e caia de boca (13) nesse belo exemplar do indie-pop sueco. Será um entra e sai frenético (14) no seu player. OK, OK, chega...
Pinto - Hook Me Up - 69
Ano: 2007
Origem: Suécia
Gênero: Indie Pop
IN Picks: Iron & Rusty, This Pictures Needs A Frame, What Is A Liar
Pra quem gosta de: Portastatic, Pelle Carlberg, Club 8
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Não Bastaram Os Ouvidos...
enviado por César M. em 4.8.09
"A banda mais barulhenta de Nova Iorque" está de volta. Em 2007, centenas de resenhas usaram a expressão "a banda mais barulhenta de Nova Iorque" para descrever o trio insano formado por Oliver Arckermann, Jono MOFO e Jay Space. Dois anos depois, "a banda mais barulhenta de Nova Iorque" entitula seu novo trabalho sugestivamente, implorando para que todos blogs, sites e revistas repitam que A Place To Bury Strangers é "a banda mais barulhenta de Nova Iorque". Já está com dor de cabeça de tanto ler "a banda mais barulhenta de Nova Iorque"? O IndieNation só está te preparando para o que virá...
"Exploding Head" (Mute, 2009) é o título do novo álbum da band... do power trio shoegazer. De cara, o ouvinte fica tentado a enxergar mudanças no norte musical, já que a dupla It Is Nothing e In Your Heart (apesar de nascerem tão barulhentas quanto as irmãs) guarda alguma semelhança com bandas mais maleáveis (Ride e Joy Division, respectivamente). Lost Feeling, no entanto, não nega a vocação com seus 5 minutos de barulho ensurdecedor, não recomendáveis para quem usa fones de ouvido. Mas o aperfeiçoamento do ambiente quase intransponível criado para o primeiro disco é perceptível: despida da distorção brutal, Deadbeat poderia tranquilamente frequentar pistas de dança. Keep Slipping Away é ainda mais direta, com melodia oitentista inspirada em Depeche Mode.
Só não tente ir aumentando o volume. A chance de ruídos eternos no seu ouvido são enormes se a absurda Everything Always Go Wrong rodar próxima do volume máximo. Ao contrário da faixa-título, que assusta no nome, mas pode ser encaixada na mesma categoria de Keep Slipping Away: melodia comparável a qualquer grande nome do synth-pop mas instrumental duro, inspirado no irmão mais sujo do gênero, o post-punk. Enquanto a brutalidade chega a níveis descontrolados em I Lived My Life To Stand In The Shadow Of Your Heart, dá pra pensar naqueles discos que a gente recomenda que sejam apreciados com fones de ouvidos. Porque a recomendação aqui é exatamente oposta: para o bem da sua saúde mental, não ouça "Exploding Head" com fones de ouvido. Jamais.
A Place To Bury Strangers - Exploding Head - 81
Ano: 2009
Origem: EUA
Gênero: Shoegaze/Industrial/Noise
IN Picks: Keep Slipping Away, Deadbeat, I Lived My Life To Stand In The Shadow Of Your Heart
Pra quem gosta de: Suicide, Serena-Maneesh e The Jesus And Mary Chain
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Barbas Lo-Fi
enviado por César M. em 3.8.09
Os cabelos e a barba do vocalista Jesus Cris... quer dizer, Ryan Grubbs, denunciam que o Ganglians gosta das coisas ao natural. E a banda da Califónia faz mesmo parte dessa nova leva de psicodelismo folk lo-fi que engloba bons nomes como Kurt Vile e Ducktails. "É música para "acid-takers" (a tradução soaria estúpida)... mas sem todas as óbvias armadilhas do psych drone (outra tradução desnecessária)" disse Grubbs, ao tentar descrever seu próprio trabalho e, sem querer, explicando o motivo do sucesso de "Monster Head Room" (Woodsist, 2009).
Os menos de trinta segundos em que Something Should Be Said se esconde são suficientes para revelar a verdadeira intenção do Ganglians: soar como Beach Boys, não importando o recipiente musical. É o que Voodoo, logo em seguida, prova com mais eloquência, misturando os coros característicos dos clássicos de Brian Wilson a uma melodia dançante cravada por um baixo inspiradíssimo em Talking Heads. Surge então a quase insossa Lost Words, lembrando o completamente insosso Fleet Foxes e deixando no ar uma certa desconfiança, exterminada no ritual barulhento que marca a insana Valient Brave, melhor faixa do álbum. A segunda parte de "Monster Head Room" é iniciada com dois momentos de destaque no EP auto-intitulado, lançado um pouco antes do disco cheio. The Void e a explosiva 100 Years formariam juntas um buraco negro musical, num momento de total escape da realidade. Mas no meio delas, a calmaria do campo em To June não deixa o ouvinte ser carregado para o espaço.
Duas canções pastorais (Cryin' Smoke e Modern African Queen) precendendo mais um surto Beach Boys em Try To Understand, finalizam o álbum reafirmando a capacidade do grupo para moldar diferentes formas de expor suas influências. Poderia ser só mais um lançamento lo-fi da fábrica Woodsist, mas a habilidade em aparar arestas comuns do gênero faz desse um dos trabalhos mais interessantes de 2009.
Ganglians - Monster Head Room - 80
Ano: 2009
Origem: EUA
Gênero: Fuzz Folk/Lo-Fi/Psychedelic
IN Picks: Valient Brave, 100 Years, Try To Understand
Pra quem gosta de: Neil Young, Ducktails, Beach Boys
GANGLIANS - VALIENT BRAVE
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Os Outros #1
enviado por César M. em 3.8.09- O ótimo Lazer Guided Melodies colocou uma bela mixtape no ar, no último dia 28.
1. Cessna, "Go Easy Gavin"
2. Evie Sands, "Crazy Annie"
3. Gloria Scott, "(A Case Of) Too Much Lovemakin'"
4. The Colourfield, "Thinking of You"
5. Aberdeen, "Sink or Float"
6. Saint Etienne, "Sylvie"
7. Cinnamon, "Maybe In The Next Life"
8. Pelvs, "Even If The Sun Goes Down (I'll Surf)
9. Makin' Time, "The Girl That Touched My Soul"
10. The Wild Swans, "Northern England"
11. Ride, "From Time to Time"
Mais uma compilação que fiz e essa foi bastante trabalhosa. Achar algo que seja do nível de "Sylvie" do Saint Etienne foi realmente difícil, demorei uns dois meses, sem brincadeira. Nada combinava, até que esse final de semana estava ouvindo Cinnamon e pronto, achei a música perfeita. Espero que gostem.
Link #1: Lazer Guided Melodies - LGM Mixtape #4
- O não menos excelente Anorak, foi de podcast, o segundo Depois da Janta.

1) Grass Widow - Green Screen (Grass Widow 12″, 2009) [Make a Mess Records]
2) Real Estate - Fake Blues (Fake Blues 7″, 2009) [Woodsist]
3) Kurt Vile - Summer Demons (Fall Demon 7″, 2009) [Skulltones]
4) Yo La Tengo - Here To Fall (Popular Songs, 2009) [Matador]
5) Six Organs of Admittance - The Ballad of Charley Harper (Luminous Night, 2009) [Drag City]
6) The Pastels & Tenniscoats - About You (JAMC cover) (Two Sunsets, 2009) [Domino]
7) Ducktails - Wishes (Landscapes, 2009) [Olde English Spelling Bee]
8 ) A Sunny Day in Glasgow - Ashes grammar/Ashes maths (Ashes grammar, 2009) [Mis Ojos]
9) Young Prisms - Weekends and Treehouses (Young Prisms, 2009) [Mexican Summer]
10) Superchunk - Crossed Wires (Crossed Wires 7″, 2009) [Merge]
11) Blues Control - Good Morning (Local Flavor, 2009) [Siltbreeze]
Link #2: Anorak - Depois da Janta #2
- O simpático The Crystal Lake está com o novo single do Foxes! E a exclamação pertence ao nome da banda mesmo.

O novo single do The Foxes! é apaixonante! Tudo neste trabalho remete à criatividade e a musicalidade deste trio de Brighton. "Who Killed Rob?" é uma canção maravilhosa, com um clipe igualmente genial e hilário. Capa, letras, vocais, melodia, video, tudo neste trabalho está incrível. Ao lado do Afternoon Naps, The Besties, The Pocketbooks, The Smittens, o Foxes! vai calcando seu nome entre os grandes do pop alternativo.
MUST-LISTEN!
Link #3: Foxes! - Who Killed Rob? (2009)
- Já faz tempo, mas o estupendo César Marins andou divagando sobre "Parada Lésbica" no Escolha Estranha.
-Elas fizeram questão de ter uma parada só delas, um dia antes da Parada Gay. Felicidade gay, brilho, glamour e loosho é coisa pra bicha. Mulher que pega mulher tem que ser séria, chata e macho. Just like their fathers.
-No jornal passa a notícia, "Dia Gay no Hopi Hari", ai entram as bichas felizes, pulando, dançando, curtindo, festa dura, coisa louca. Ai entram as lésbicas. Cada pisada, uma estremecida. Fumando. Cara fechada. Boné. Bermuda.
Felicidade passou longe.
Link #4: Deve Ser Triste Ser Lésbica






