- O Spoon e a eficiência que cansa
Guardadas as devidas proporções, a maneira como o Spoon entende a música pop é semelhante ao conceito praticado pelo R.E.M. desde Chronic Town, em 1982. Enquanto o Sonic Youth demolia estruturas, a banda liderada por Michael Stipe se empenhava em rearranjá-las, e duas seguiram lado a lado como as mais influentes e importantes do rock americano na década de 80. Comparando as discografia das duas bandas, o poderoso Ga Ga Ga Ga Ga equivaleria a Document, o momento em que o Spoon flerta com o mainstream. Em Transference [Merge, 2010], a banda texana dá um salto no tempo e faz seu Up, um álbum característico, cuidadosamente executado e inegavelmente eficiente. Porém, nos dois casos, os músicos não conseguiram disfarçar o inevitável cansaço.
As canções mais imediatas de Transference seguem o conhecido padrão do Spoon e não vão pegar de supresa nenhum ouvinte de longa data. "The Mystery Zone", por exemplo, é irmã quase gêmea de "I Turn My Camera On", hit de 2005 (Gimmie Fiction). Já "Written In Reverse", melhor faixa do disco graças ao vocal intenso de Britt Daniel, segue a receita de sucesso do álbum anterior. E falando em Ga Ga Ga Ga Ga, não dá pra ouvir "Trouble Comes Runing" sem pensar no petardo "You Got Yr. Cherry Bomb", tanto pela estrutura da composição quanto pela melodia vocal, bastante semelhantes.
O mais singular dos destaques é, sem dúvida, "I Saw The Light" e seu andamento de progressão épica. A maneira como a canção cresce num sentido, volta e se rearranja para crescer novamente é uma mostra do talento às vezes insuficientemente explorado de Daniel como compositor. A perspectiva em relação ao restante da carreira fica escondida entre as poucas faixas que indicam algum terreno novo a ser explorado. A balada convencional ao piano "Goodnight Laura" é um belo exemplo do que o Spoon deve evitar com muito afinco em futuros trabalhos. "Out Of Lights" não é exatamente revolucionária, mas agrada ao investir num post-punk mais contemplativo.
Após um álbum repleto de vitalidade parece que o cansaço bateu. Transference não chega a macular uma constante trajetória de bons discos, mas fica aquém da expectavivas. Britt Daniel e cia. parecem não entender que o Spoon não precisa ser sempre o mesmo Spoon, por mais que seja essa a opção mais confortável para músicos e para os fãs.
FICHA TÉCNICA
Artista: Spoon
Álbum: Transference
Origem: EUA
Ano: 2010
Gênero: Indie Rock
Escolhas do IN: "Written In Reverse", "I Saw The Light", "Out Of Lights"
Pra quem gosta de: The National, Afghan Whigs, Idlewild
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