IndieNation - Rio de Janeiro, Brasil - CONTATO

Superguided By Voices


"O que o Robert Pollard faria numa situação dessas?". Lucas Pocamacha, em 2007, numa entrevista para o IndieNation, revelou que as indecisões no processo de gravação do espontâneo disco de estréia do Superguidis eram resolvidas a partir dessa pergunta. Não tivemos a felicidade de conversar com o guitarrista novamente, mas parece que, 4 anos depois, o quarteto gaúcho ainda é fiel devoto da Igreja de São Bob. Talvez por isso, Superguidis [Senhor F, 2010] seja, precocemente, o que o professor americano é, atualmente: uma mistura da mais pura sinceridade com uma inegável e indesejável burocracia.

Sendo postulante quase solitária ao papel de melhor banda de rock do país, é compreensível que o Superguidis se inspire tão fervorosamente no músico. Afinal, foi nas mãos do GBV, contemporâneos e de seus seguidores nos anos 90 que o gênero conheceu sua última grande fase. Como o espectro dessa era é amplo, o álbum sobrevive a reverência buscando a densidade dos artistas da época. Desde a ala mais bem sucedida comercialmente (Pearl Jam, Foo Fighters/Nirvana) até a turma do culto (Pavement, Pixies, Dinosaur Jr.), todo aquele universo está presente nesse terceiro álbum. Porém, duas bandas mais notadamente: Guided By Voices (óbvio) e os heróis independentes do Superchunk. Curiosamente, dois nomes que se escondem no nome do disco e banda.

Supergudis se inicia com "Roger Waters", a primeira e única balada do quarteto gaúcho. Poderia funcionar como uma válvula de escape se não fosse executada de maneira tão convecional. A espertíssima letra, herança de Stephen Malkmus e seu desprezo pela poética, até consegue tornar os dois minutos levemente mais agradáveis, mas denunciam o martítio no verso "o que dá pra fazer é esperar passar". Esperando, o ouvinte é presenteado com o petardo "Não Fosse O Bom Humor", rockão direto de guitarras altíssimas. Começa então um passeio pela década de 90 numa sequência de boa canções (especialmente "As Camisetas" e "Usual", dois belos trabalhos de combinação melódica entre voz e guitarra) que remete diretamente ao clássico No Pocky For Kitty.

Duas composições chamam atenção por pecados na finalização. "De Mudança" tem uma interessante melodia sonicyouthiana e merecia um trabalho de pós-produção mais caprichado. Já "Aos Meus Amigos", ao contrário, peca pelo excesso: caminhando gloriosa para um final arrebatador, depois de nos apresentar riffs, melodia e letra impecáveis (o verso "Aos meus amigos toda acidez de um abraço embriagado" é simplesmente arrebatador), a canção encontra um desnecessário e aborrecido arranjo de cordas. Porém, não dá pra dizer que todo o resto tenha se perdido em 30 segundos de rococó...

No geral, o terceirão dos gaúchos funciona como divertimento. A inusitada e envolvente lírica ainda está lá, além da reconhecida eficiência e rapidez. Foi assim nos dois primeiros álbuns e parece que vai ser sempre assim com o Superguidis. Já viram esse filme? Os caras já viram, gostaram e não conseguem parar de assistir. Não tem como duvidar, o filme é ótimo. Mas esse a gente já conhece de cabo a rabo...


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FICHA TÉCNICA
Artista: Superguidis
Álbum: Superguidis
Origem: Brasil
Ano: 2010
Gênero: Rock
Escolhas do IN: "Não Fosse O Bom Humor", "Aos Meus Amigos", "As Camisetas"
Pra quem gosta de: Superchunk, Foo Fighters, Guided By Voices




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Best New Music #03



INTERNET FOREVER - COVER THE WALLS

Suécia em Chamas

- Novo álbum do Radio Dept. confirma a vitalidade do indie pop sueco


"Heaven's On Fire", esse híbrido perfeito entre o som habitual do Radio Dept. (guitarras flutuantes, vocal sussurado e processado) e o toque melódico divinal do conterrâneo Jens Lekman, era o que essa pequena grande banda sueca precisava para atravessar de vez as fronteiras dos pequenos blogs e sites especializados. Embora seja responsável por dois excelentes long-plays (com leve destaque para o debut, Lesser Matters, de 2004) e um punhado de grandes canções espalhadas por numerosos maxi-singles e EPs, o grupo liderado por Johan Duncanson ainda não recebeu a devida atenção além dos poucos mas ardorosos admiradores do selo sueco  Labrador (casa de gente como El Perro Del Mar, Sambassadeur, Club 8 e Acid House Kings). Clinging To A Scheme [Labrador Records, 2010] e seu poderoso segundo single talvez tenham a força necessária para atingir novas audiências, mesmo que não representem nenhuma grande reinvenção no eficiente modo de trabalho do Radio Dept.

"Domestic Scene" abre o álbum contida, parecendo guardar o ouvinte para o grande momento. Antes mesmo que o fade out deixe a primeira faixa para trás, um Thurston Moore vindo diretamente de 1991 (mais precisamente direto de 1991 - The Year That Punk Broke) anuncia "Heaven's On Fire", ensolarada e instântanea. Tamanha acessibilidade só é sentida no synth-pop de "David", uma provável declaração de amor gay platônico. "David", primeiro single lançado ainda em 2009, funciona como uma continuação mais desencanada da atmosfera sintética de Pet Grief, o LP anterior. "Heaven's On Fire", por sua vez, está bem mais ligada ao incrível Lesser Matters, um trabalho bem mais orgânico.

O inusitado fica por conta de "Never Follow Suit", que poderia ser uma espécie de eletroreggaezer, se um gênero tão absurdo quanto esse for capaz de existir. Nada tão imediato quanto os primeiros dois singles, mas de certo charme e impacto. No final, "You Never Stopped Making Sense" traz o Radio Dept. na sua forma mais admirada: melodia de ninar e instrumental abafado, como uma afirmação de identidade. E Clinging To Scheme é isso, na verdade: como se o Radio Dept. estivesse fazendo um álbum para representar essa admirável geração do pop sueco. Mesmo que não seja essa a intenção, eles conseguiram.


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FICHA TÉCNICA
Artista: The Radio Dept.
Álbum: Clinging To A Scheme
Origem: Suécia
Ano: 2010
Gênero: Dream Pop/Shoegaze/Synth Pop
Escolhas do IN: "Heaven's On Fire", "David", "Never Follow Suit"
Pra quem gosta de: The Embassy, New Order, A Sunny Day In Glasgow




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