IndieNation - Rio de Janeiro, Brasil - CONTATO

Entrevista: Top Surprise


TOP SUPRISE - JUIZ DE FORA/MG


A expressão college rock pode não significar mais nada hoje em dia, mas faz brilhar os olhos de quem cresceu em torna da boa música pop dos anos 90. Os olhos de André Medeiros, guitarra e voz no quarteto mineiro Top Surprise, devem brilhar como se pudessem ser usados para iluminar o Maracanã. O primeiro EP de sua banda, Everything Must Go [Pug Records, 2010], é um tributo fiel e divertidissimo à época, além de travar um diálogo interessante com bandas de selos congêneres, como Woodsist ou In The Red. Esse pancadão distorcido é o assunto principal dos minutos de prosa que o André trocou com o IndieNation. O camarada falou sobre suas influências, o apreço por técnicas de som de baixa fidelidade, o seu selo e a relação com a Transfusão Noise Records, a milagrosa fábrica lo-fi de Lê Almeida (produtor do EP). Confira:

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César M.: - Top Surprise me lembra uma coletânea da Som Livre nos anos 90... alguma relação ou eu viajei profundamente nesse momento?

André Medeiros: - Você é o primeiro a sacar, ou ter coragem de perguntar. A coletânea era uma merda no geral, mas tinha uma faixa do Breeders no meio, apresentou uma geração pra banda. Eu queria um nome intrigante, que não soasse como nome de banda. Top Surprise é tão ridículo que eu não pude evitar.

CM: - E sobre o processo de gravação... a baixa fidelidade é proposital ou circunstacial?

AM: - É proposital, une o útil ao agradável. Tem a ver com as bandas atuais que nós temos curtido mais, e com coisas que nos influenciaram mais profundamente: Guided By Voices, Elephant 6, anos 90 em geral... E o melhor é que não custou 1 centavo de estúdio!

CM: - Então mesmo com um acesso mais fácil ao estúdio, vocês continuariam gravando da mesma maneira?

AM: - No momento, sim. Nada contra estúdio, o problema é que com ele vem uma série de encheções de saco. Não dá pra ter muito controle, você acaba brigando com o técnico, que geralmente é metaleiro, blueseiro, mpbista. Dificilmente alguém que vai entender a nossa proposta.

CM: - Eu pergunto isso porque eu tenho curiosdade em saber como seriam os meus "clássicos lo-fi" [só pra deixar claro, Propeller e Slanted and Enchanted] em alta fidelidade... Você tem curiosidade em ver como soaria Everything Must Go gravado com recursos de estúdio?

AM: - Acho que soaria bem, gravado com metrônomo, timbres mais balanceados e, principalmente, os vocais mais caprichados. Soaria mais agradável, algumas pessoas conseguiriam ver melhor que existem boas composições ali. Mas definitivamente soaria menos interessante, num âmbito geral. Eu estou satisfeito com o resultado.

CM: - Pensando sobre suas influências, uma que ficou muito clara pra mim foi a do J. Mascis [deparem-se com a podridão do solo em "More Than Cool" e confirmem com seus próprios ouvidos]... Eu sei que vocês devem ouvir bastante coisa, mas Dinosaur Jr. me parece bem mais destacado do que qualquer outra coisa... Procede?

AM: - Dinosaur Jr. é uma das minhas bandas preferidas, especialmente o You're Living All Over Me. É ilógico aquele disco, tem uma coisa inexplicável.

CM: - É um dos meus discos preferidos também...

AM: - Aliás, quem curte muito o Propeller é o Lê.

CM: - Lê Almeida, né?

AM: - Isso. Eu acho bom, mas pra mim fica atrás do Alien Lanes e do Bee Thousand.

CM: - Tenho uma pergunta pra fazer sobre a relação de vocês... Você acha que existe uma cena lo-fi no Brasil? Qual a relação de vocês com a Transfusão Noise?

AM: - A Transfusão, pra mim, é a coisa mais importante na música brasileira atualmente!

C: - Declaração bombástica, hein...

AM: - [Risos] OK, é que eu sou muito fã mesmo. As pessoas estão começando a prestar atenção no Lê, e isso é mais do que justo, mas tem outras bandas sensacionais no selo: Carpete Florido, Tape Rec, Fujimo, etc...

CM: - Qual é a sua aposta? Tirando o próprio Lê Almeida, que já está mais "consolidado"...

AM: - 2038, último EP do Fujimo, é demais! É um dos melhores lançamentos da Transfusão. Os caras moraram no exterior metade da vida, viram ao vivo Pavement, Built to Spill, Guided By Voices, Sebadoh e tudo mais. E você sente o quanto eles amam o Lê e foram influenciados por ele.

CM: - Voltando as influências, só pra completar... o que tem achado da volta do Dinosaur Jr.?

AM: - Acho os dois discos muito bons. Realmente procede aquele papo de que é como se a banda tivesse ficado congelada por 15 anos. Mas a maior vantagem dessa volta é a chance de ver a banda ao vivo, que deve ser uma coisa transcendental. Uma amiga minha viu esses dias na Inglaterra, chorou e tudo mais...

CM: - E quem não choraria?

AM: - Pois é.

CM: - Vocês são de Juiz de Fora. É mais dificil ser "banda do interior" ou dá na mesma?

AM: - Bem mais difícil, sem dúvida. Ainda tem a vantagem de Juiz de Fora ficar no Sudeste, pertinho do Rio, imagino se fosse no Norte, Centro-Oeste.

CM: - Imagino que pra marcar shows fica bem mais dificil?

AM: - Com certeza. Mas a banda está começando mesmo agora, acabamos de lançar o EP. As coisas vão acontecendo.

CM: Pra terminar, conte-nos sobre a Pug Records?

AM: Somos eu, o Du (do Last Splash) e a Amanda, minha namorada. É uma idéia que a gente já discutia há muito tempo, criar uma marca, agregar bandas nas quais a gente acredita.

CM: Entrando no site da Pug, o que mais chama a atenção na lojinha são as fitas K7...

AM: Pois é, as fitas são a opção que a gente fez para a parte física do selo. Hoje em dia acho que é mais interessante lançar em cassete do que em CD-R, embora o CD-R seja um grande amigo. Vinil e CD de fábrica são caros demais. Nossas fitas são bem limitadas, são para quem gosta mesmo de ter algo em mãos. E apesar de serem ítens de colecionador, não são caras

CM: Também nesse caso, o formato é proposital e circustancial ao mesmo tempo...

AM: Isso mesmo. Acho que complementa a estética do selo.

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As fitinhas do Top Surpise (além de outros lançamentos clássicos da K Records) estão disponíveis na loja da Pug Records. Pra ouvir o revigorante Everyhting Must Go, é só baixar o link distribuído pelos próprios no MediaFire.

Levi's Music [2010]

A fase "social" da internet promoveu novas divisões na antes bifacetada música pop brasileira. Se no passado era fácil dividir artistas entre independente e mainstream, agora a coisa está um pouco mais complicada. Embora esses conceitos ainda tenham certa força (analisando a música apenas mercadologicamente), a aproximação entre esses dois mundos os tornou insuficientes. E quem deu o primeiro passo foi o lado independente: tanto as escolhas musicais quanto a postura estética de alguns novos artistas parecem tão semelhantes ao modo de operação do mainstream, que dentro do independente é perceptível o surgimento de correntes antagônicas. Enquanto cenas estabelecidas em São Paulo e Rio de Janeiro continuam produzindo música ousada e genuinamente brasileira, dezenas de jovens mais identificados com a música de fora aproveitam a facilidade da troca de informações atual para produzir e compartilhar sons mais despretensiosos e conectados com a sua realidade particular.

Claro que, mesmo com boa intenção, nem tudo vale a pena. Para tornar o nosso trabalho mais fácil, cinco padrinhos ilustres buscaram nesse mundaréu de novos artistas, uma banda para participar do projeto Levi's Music, iniciativa que premiará a banda vencedora com a produção de um vídeo que vai figurar na capa do YouTube no próximo dia 17 de julho.

Sweet Fanny Adams - Recife/PE - Video


Ana Garcia, do indispensável Coquetel Molotov, apostou nos conterrâneos do Sweet Fanny Adams. E talvez seja essa a banda que melhor representa a diversidade da nova música nacional. O quarteto de Recife toca e canta como se tivesse nascido em Manchester, ano 1978. Isso os deixa muito mais conectados com o pop jovem que é feito na Inglaterra atualmente do que com o som mais fluído de um Hurtmold, por exemplo. Ou até com o Mombojó, pra ficar só com recifenses. Viu como o independente nacional parece bem mais diluído agora?


Stellabella - Rio de Janeiro/RJ - Video


E a banda selecionada pelo padrinho falastrão Tico Santa Cruz corrobora a tese (e esse é padrinho mesmo, já que participa de uma das canções disponíveis para apreciação na página da banda, no MySpace). A estrutura de suas canções, mais relacionadas como grunge/hard-rock que o vocalista do Detonautas parece admirar, torna o som da carioca Stellabella meio deslocado até nesse universo que o Levi's Music Live pretende abranger. O contraponto com o som quase fashionista da banda capixaba Zémaria é nitido. Aposta do blogueiro Alex Côrrea (que comanda o noticiário musical Move That Jukebox), o synth-pop do quarteto está há quilômetros de distância do rock duro do Stellabella, provavelmente no Brooklyn (o de Nova York, é claro).

Stop Play Moon - São Paulo/SP - Video

Alê Youssef, dono do Studio SP, escolheu o Stop Play Moon, trio eletrônico que guarda certa similaridade com o Zémaria, embora a embalagem pareça ser menos irônica que a usada pelos colegas do Espírito Santo. Ainda sem nenhum lançamento oficial, o Stop Play Moon já recebeu convites para trocar fora do Brasil, possivelmente credenciados pela semelhança estética com o Cansei de Ser Sexy, a mais bem-sucedida dessa geração. Já Pablo Miyazawa Rocha, editor chefe da Rolling Stone Brasil, apostou no artista mais influenciado pela MPB, embora esse não seja um elemento primordial. Nevilton, da novata (em termos de exportação musical) Umuarama no Paraná, é um possível fã de Los Hermanos, pelo que se percebe ao ouvir seu primeiro lançamento oficial, o EP Pressuposto.

Nevilton - Umuarama/PR - Video

Entre no site oficial do Levi's Music, ouça o trabalho de cada uma das apostas e escolha a sua banda preferida até o dia 4 de junho, quando termina a votação. Depois de votar, dá uma passadinha no Facebook da Levi's, que algumas surpresinhas estão sendo preparadas (ouvi falar em prêmios). Se o artista que você escolher for o mais votadoNo ano passado, o Copacabana Club foi contemplado com o deslumbrante vídeo de Just Do It, que acabou se tornando um indie-hit nacional. E em 2010, quem vai merecer a honra?

Zémaria - Vitória/ES- Video



Convocação

Quem acompanha o blog sabe que, no ínicio do ano, eu escolhi duas interessadas em colaborar com textos para o IndieNation. O mundo é corrido e, assim como eu, as duas também não tiveram tempo para manter suas colaborações em dia. Sendo assim, a convocação é feita novamente!

- Primeiro é preciso ter uma certa compatibilidade com o perfil musical do blog. Então faça o seguinte: corre na minha página no Last.fm. Deu super ou pelo menos gostou do que viu? Tá valendo. E mesmo que nenhuma das alternativas seja verdadeira, você confia no seu taco? Tá valendo, também.

- Aí você pode me enviar um texto (ou link de blog/site com alguma coisa boa escrita) através do indienation.brasil@gmail.com e aguardar a resposta desse que escreve.

- Serão chamados quantos forem bons. Se todo mundo que se candidatar for bom, tudo mundo será colaborador. E se ninguém for, continua do jeito que está.

O Amor é Surdo


Músicos que inspiram amor e ódio quase sempre inspiram desprezo em pessoas razoáveis. Pessoas razoáveis ouvirão Treats [NEET/Mom + Pop, 2010] e, provavelmente, recordarão de muito pouco. Com exceção do volume, é claro, sempre alto, MUITO ALTO. Mas pessoas razoáveis quase não existem. Por isso, a estréia da dupla americana Sleigh Bells será um tópico bastante discutido entre esse moçada bonita e saudável que gosta de música pop. Dá para sentir o amor e o ódio brotando daquela guitarra pilantra que certamente foi gravada no auge do hard-rock... em 1984, talvez. Ou das toneladas de efeitos que fazem o ouvinte desconfiar que alguém nessa dupla já perdeu um pouco da audição diante de algum disco do Merzbow. Você vai pensar em Glee, você vai pensar no Go! Team. Perceberam um indício de embate entre a indolência e a esperteza? Então, pessoa razoável, pense em Treats como um debate acalorado e em alto volume entre a vanguarda e a ralé.

A inspiração mais óbvia talvez seja M.I.A. (dona de um dos selos responsável pela prensagem do debut), embora a pesquisa aqui não seja nada profunda. Enquanto a cantora inglesa busca inspiração em timbres inexplorados pelo Primeiro Mundo, o Sleigh Bells brinca com o que há de mais ordinário na música americana: o R'n'B. Herança provável da metade feminina da dupla, que andou se aventurando num mal-sucedido grupo pop adolescente chamado Ruby Blue nos anos 90. Sendo a metade masculina egressa da (também mal-sucedida) banda de hardcore Poison The Well, forma-se assim o quadro de bipoloridade que provoca tanta curiosidade.

Mas não existem muitos mistérios por trás do Sleigh Bells. Se você já ouviu "Crown On The Ground", hit do ano passado (presente na nossa lista de melhores faixas de 2009), ouviu Treats pela metade. "Kids", por exemplo, é tão idêntica que provoca constragimento. Falando em semelhanças, fica dificil perceber o limite entre sampler e cover em "Rill Rill", faixa que usa a base instrumental de "Can You Get to That?", do Funkadelic, sob uma leve variação da melodia vocal. Porém, em faixas como "Infinity Guitars" e "Straight A's", o lado noisy ganha força e o som do Sleigh Bells ganha mais corpo, por tabela. O hip-hop intenso de "Crown On The Ground" se mantém como grande estrela da companhia, assim como aconteceu na demo auto-intitulada que comoveu os blogueiros americanos no ano passado.

Este álbum é uma única idéia: traduzir literamente o conceito de noise-pop, misturando a abrasividade dos ruídos da música experimental com a leveza das melodias fáceis das rádios FM. É ocasionalmente divertido, é inusitado, mas é literal demais, também. Tamanha obviedade não dura mais do que 32 minutos...




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FICHA TÉCNICA
Artista: Sleigh Bells
Álbum: Treats
Origem: EUA
Ano: 2010
Gênero: R'n'B/Noise
Escolhas do IN: "Crown On The Ground", "Straight A's", "Infinity Guitars"
Pra quem gosta de: M.I.A., The Go! Team, Glee




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