IndieNation - Rio de Janeiro, Brasil - CONTATO

É Isso

Não existe nenhuma lei que diz que jornalismo deve ser feito para as pessoas mais estúpidas do mundo. Se o seu jornalismo é feito para atrair o máximo de pessoas de algum tipo para lerem o que você escreve, então não há razão para fazer algo específico em música. Porque se você escrever sobre outra coisa, então mais pessoas vão ler. Se você escrever sobre a Copa do Mundo, mais pessoas vão ler do que sobre música, então por que você está escrevendo sobre música? Se você decidiu que quer escrever sobre música, essa é uma decisão sua não baseada no que é mais popular. Então você tem uma obrigação de levar isso a sério, porque você escolheu escrever sobre música. O argumento de que isso é mais popular, “é isso que as pessoas gostam”, não significa nada para mim. Porque o que é popular, o que as pessoas gostam, é de McDonald’s, Coca-Cola. Isso é popular. Mas não é necessariamente a melhor coisa para comer ou beber. E se você escrever sobre comida, talvez você deva escrever sobre as melhores comidas que as pessoas podem comer ou beber, ou dizer que tipo de problema elas teriam se elas só comessem McDonald’s e tomassem Coca-Cola.

Steve Albini

It's All Gonna Break




incrível...

IndieNational #3


Está no ar mais um volume da nossa coletânea com destaques da música independente nacional. A maioria das faixas foi lançada no período entre abril e junho, sinalizando a manutenção do bom período para o pop nacional depois de um ótimo 2009. A coletânea abre com o espetacular frevo-post-rock-candomblé "A Emanação dos Sonhos", destaque absoluto do novo álbum do Guizado (que aparece, em outra faixa, acompanhado a pernambucana Karina Buhr), e traz outros três grandes nomes da efeverscente cena experimental paulistana: Bodes & Elefantes, MDM e o indispensável Maurício Takara (todos integrantes do Hurtmold).

Dos mais jovens, destaque para a surpreendente Dorgas, banda carioca que parece não se levar muito sério, e para o "supergrupo" Babe Florida, coletivo do selo DIY Transfusão Noise. Uma provável inspiração para as duas bandas, Marcelo Colares e seu lendário Cigarettes (que ressurgiu em 2010 com um delicioso EP-teaser) também tem uma faixa selecionada para o volume 3. De integrantes também veteranos, o Do Amor aparece com o rock de arena "Chalé", cedido para a coletânea do Bloody Pop. Completam o tracklist, os indie darlings Holger (com a internacional "Let 'em Shine Below") e Rosie And Me.



INDIENATIONAL VOL.3 | 68 MB

TRACKLIST:
01 | A EMANAÇÃO DOS SONHOS | CALAVERA | GUIZADO [SÃO PAULO, SP]
02 | LET 'EM SHINE BELOW | SUNGA | HOLGER [SÃO PAULO, SP]
03 | SALISME | VERDEJA MUSIC | DORGAS [RIO DE JANEIRO, RJ]
04 | POTHEAD | HAPPINESS, GLORY AND CALMNESS | THE CIGARETTES [ITAPERUNA, RJ]
05 | BEHOLD THE ICE GOAT | BEHOLD THE ICE GOAT | BODES & ELEFANTES [SÃO PAULO, SP]
06 | EU MENTI PRA VOCÊ | EU MENTI PRA VOCÊ | KARINA BUHR [RECIFE, PE]
07 | BONFIRES | BIRD AND WHALE | ROSIE AND ME [CURITIBA, PR]
08 | CHALÉ | DO AMOR [RIO DE JANEIRO, RJ]
09 | PÉ DE AMORAS | VOL. 1 | BABE FLORIDA [SÃO JOÃO DE MERITI, RJ]
10 | SOL SOBRE A CABEÇA | MDM | MDM [SÃO PAULO, RJ]
11 | ESPELHO | SOBRE TODAS E QUALQUER COISA | M.TAKARA 3 [SÃO PAULO, SP]


Guerrilheira

Partir para o confronto direto nem sempre é uma boa estratégia. M.I.A. optou por táticas de guerrilha para lançar seu mais novo álbum, então é possível que muita gente não consiga ouvi-lo com clareza no meio de tanta bomba. Prevenida, a cingalesa resolveu fazer de /\/\ /\ Y /\ [N.E.T.T. Recordings, 2010] seu trabalho definitivo. E, de fato, o álbum consegue estabelecer uma identidade pós-Top 5 com honestidade e vigor raros para artistas nesse ponto de transição. O discurso intelectualmente inocente, a conexão entre a som do "terceiro mundo" com a modernidade européia, colaborações com produtores de mentalidade semelhante, o meio-termo entra a festa e o conceito... enfim, todas as características (positivas ou negativas) que marcaram Kala (2007) e Arular (2005) aparecem aqui em cores berrantes. Se era para brigar, M.I.A. escolheu brigar por algo que valia a pena: ela mesma.

As provocações (tolas) começam logo no ínicio. Sobre um beat frenético, uma voz masculina nos alerta que o Google é uma arma de controle governamental. Por um lado soa infantilóide, mas não dá para dizer que M.I.A. não acredita no que diz, já que o restante do álbum é efetivo na confirmação da paranóia. Se em "The Message" ela alinha seu discurso com as entrevistas pré-lançamento, na faixa seguinte, "Steppin' Up", é hora de se reafirmar ("M.I.A./ Você sabe quem eu sou" ela repete, algumas vezes). Pode ser dificil pescar alguma palavra em meio ao abrasivo background de efeitos eletrônicos, mas você não achou que ela ia vender o peixe só uma vez, achou? "XXXO" é um irônico R&B radiofônico de letra desafiadora que serve como um novo atestado de independência. Contudo, o resultado ignora a lógica que prejudica a estranha e confusa arte da capa: metalinguagem do lixo ainda é lixo.

Em números menos focados no próprio umbigo, porém, a artista/terrorista supera as expectivas. É o caso da espetacular "Born Free", faixa que sampleia "Ghost Rider", do Suicide, com a mesma esperteza que fez de "Paper Planes" (todo mundo sabe que tem um sampler do Clash, certo?) seu maior êxito comercial até agora. Ok, é uma letra em primeira pessoa, e uma primeira pessoa bastante orgulhosa de si mesma. Mas, como o título e o vídeo sensacionalista denunciam, trata-se mais de uma mensagem política do que de exercício de auto-estima. O mais importante, porém, é que, musicalmente, "Born Free" mostra uma M.I.A. ainda mais desapegada a gêneros.

A influência dos produtores em um álbum super produzido é um ponto a ser destacado, por funcionar de maneiras distintas. Enquanto a mão de Rusko é a essência da surpreendente "Story To Be Told", Derek Miler (Sleigh Bells) faz pouco e prejudica "Meds and Feds". M.I.A. criou o monstro e ainda o convidou pra sala de estar. O resultado? Miller sampleia uma faixa do seu próprio repertório e "Meds and Feds" se torna um desnecessária versão de "Treats". Quando eu disse, em maio, que o Sleigh Bells, era um exercício repetitivo de uma única idéia, não imaginava estar tão certo assim. Trabalhando com o ex, Diplo, M.I.A.  explora terrenos conhecidos como o dancehall (o cover "It Takes a Muscle") e miami bass (as estúpidas e divertidas "Teqkilla" e "Internet Connection", a comentada faixa bonus sobre problemas com o suporte da Verizon) e consegue resultados eficientes. Nos extras da Deluxe Edition, a moça dá mais um sinal da sua capacidade infinita de irritar o mundo, colocando as faixas mais acessíveis de todo o tracklist ("Caps Lock" e a já citada "Internet Connection") na condição de sobra.

O fato resume o que é M.I.A. e, por tabela, o que é /\/\ /\ Y /\, seu auto-retrato: provocadora, egocêntrica e divertidissíma. Ela chama meio mundo pra briga como se soubesse que, mesmo que a vitória seja impossível, seu talento vai impedir que ela saia machucada. E, no meio de tanto discurso paranóico, essa parece ser a sua convicção mais próxima da realidade.



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FICHA TÉCNICA
Artista: M.I.A.
Álbum: /\/\ /\ Y /\
Origem: Inglaterra
Ano: 2010
Gênero: Eletrônica/Hip Hop
Escolhas do IN: "Born Free", "Story To Be Told", "Steppin' Up"
Pra quem gosta de: Major Lazer, Santigold, Buraka Som Sistema




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