IndieNation - Rio de Janeiro, Brasil - CONTATO

Mixtape #15


As 15 Melhores Faixas Nacionais de 2010


15.
Sunga, a estréia do Holger em LPs, é uma grande pena. A mão pesada da produção gringa conseguiu transformar a banda numa anedota relativista: se, no discurso, os integrantes falam em inspirações puramente nacionais, na prática o que se ouve é um pastiche de afro beat mauricinho que em nada lembra as melodias inspiradas do incrível EP Green Valley. A faixa escolhida abdica das batidas processadas para proporcionar um momento de diversão genuína no meio de tantas tentativas frustradas. Se as canções de Sunga funcionam quase como um quiz, "Let 'em Shine Below", pelo menos, pode ser creditada a uma cena. Contudo, 4 minutos e meio de diversão é muito menos que o EP prometia.



     




14.
E logo em seguida, outra banda de inspirações exageradamente evidentes, mas aqui a sinceridade é facilmente perceptível. "Coward Fuzz" é como aquelas camisetas com a capa de Goo que a gente cansa de ver por aí, só que em formato canção. Os momentos de doçura X distorção que se intercalam na faixa (e no EP, de mesmo nome) funcionam como uma óbvia  homenagem, porém, no limite da boa intenção. Mas se 2009 viu o próprio Sonic Youth partindo para auto-referência com The Eternal, não deve ser pecado citá-los com tanta paixão assim.



     




13.
Messias, líder do já clássico independente brincando de deus, ressurgiu em 2010 em grande, enorme e até exagerado estilo com um disco triplo que evoca o seu trabalho em banda. Embora possa parecer que Messias "fez a Joanna Newsom", o álbum não é de audição tão difícil quanto parece. São pouco mais de 90 minutos (quase a duração de 1 disco cheio) de canções rápidas e diretas, com destaque para a bela melodia de "Daily Goodbyes". A faixa é como o disco: se apresenta com certa dificuldade, mas flui com surpreendente naturalidade.



     




12.
E o nosso 12° lugar vai para a nossa comentarista de segurança pública preferida (piada quase interna), a baiana/pernambucana/paulistana Karina Buhr. A faixa título do primeiro disco solo da cantora/compositora é de uma graciosidade tamanha que não dá para colocar só na conta do sotaque charmoso. Karina acertou a largar o regionalismo genuíno porém limitante do Comadre Fulozinha e procurar uma identidade mais moderna e flexível. Coube até uma faceta sensual, um dos grandes atrativos do disco e faixa, revelando um lado que dificilmente teria vez na afirmação cultural dos tempos de grupo.



     




11.
Dificilmente alguém poderia prever que uma lista em 2010 teria uma faixa do líder do brincando de deus e outra do também lendário Cigarettes, a maior banda de Itaperuna. Marcelo Colares voltou e prometeu o melhor disco da carreira em 2011. Por enquanto, um EP disponível no site do selo Midsummer Madness confirma a boa forma do responsável por um dos grandes discos do rock nacional, Bingo, de 1997. "Pothead", a faixa escolhida, é reverente aquela década em cada nota, como se quisesse provar que as circurstâncias foram mesmo os maiores adversários do Cigarettes.




     




10.
Não fosse a garra e o bom humor, o Superguidis poderia ser uma banda qualquer. É por canções tão vigorosas como "Não Fosse o Bom Humor" que o Superguidis pode ser orgulhar de ser a única banda de rock que importa no Brasil. E por rock, entenda o ritmo básico e direto que é matéria prima de Superguidis 3, o apenas correto disco lançado pela banda nesse ano. Nessa faixa, apesar do nome, a reconhecida sagacidade da lírica passa longe, e é com o estômago frito que o Superguidis entrega o seu rock mais intenso.



     




9.
Somewhere I Can Hear My Heart Beating, o disco do qual a nossa 9ª faixa de 2010 faz parte, é o caos total. O termo pode servir como elogio ou como crítica, mas vamos ficar com o meio-termo. Se o turbilhão de idéias resulta em momentos desinteressantes (e, infelizmente, a faixa-titulo é um deles), a matadora "Lovesong For a Leaf" revela o grande potencial da banda com as arestas aparadas. Fica a impressão de que, com uma boa produção, o Inverness nos reserva grandes feitos nessa década. A conferir.



     




8.
Nessa entrevista, André Medeiros confessou seu amor por You're Living All Over Me, clássico do Dinosaur Jr. Mas não precisava ter lido a resposta para saber. É só escutar "More Than Cool", quinta faixa do pulsante EP de estréia do Top Suprise, a banda do André. Dá para visualizar aquela senhora de longos cabelos brancos com uma guitarra na mão, mas é só uma miragem (ou um pesadelo).  Na verdade, o Top Surprise é mais uma no esquadrão lo-fi que faz uma pequena revolução no pop nacional.



     





7.
Dentre os projetos paralelos ao Hurtmold lançados neste ano, o de Mário Cappi é o mais próximo ao trabalho do coletivo. Sendo assim, MDM é o Hurtmold que o Mário Cappi manda. O Hurtmold de Mário Cappi é mais caótico, barulhento, como em Sol Sobre a Cabeça, sétima faixa da nossa lista. A dinâmica de alternâncias entre calmaria e clímax é até comum ao post-rock mas a execução é feita com destreza suficiente para evitar esbarrões nos clichês do gênero. Nada surpreendente, quando se fala desse grupo que faz a música mais vibrante do país, atualmente.



     




6.
Assim como todo os outros integrantes, Maurício Takara, instrumentista do incontestável Hurtmold, aproveitou o hiato do coletivo para tocar seu projeto paralelo M. Takara 3. O ótimo Sobre Todas e Qualquer Coisa é essencialmente eletrônico, como os discos anteriores do projeto, mas os momentos de música orgânica são dignos do sensacional último disco do Hurtmold. O funk-candomblé "Rei da Cocada" é dessa cepa, qualidade proporcionada por um instrumental de execução primorosa. 



     




5.
"Pepeu Baixou em Mim" é velha conhecida mas só foi lançada oficialmente nesse ano, como parte do disco de estreia da banda. A escolha de uma faixa engraçadinha é proposital: é bom ser uma banda engraçadinha! A banda parece fugir da sua verve divertida em várias faixas de Do Amor (como no rockão antiquado "Chalé", por exemplo). Coincidentemente, são nesses momentos que o álbum não flui. Nos momentos de descontração, e "Pepeu Baixou em Mim" é um deles, o Do Amor encontra sua vocação. 



     




4.
Lambada Post-Mortem é primeira e mais longa faixa de Bad Trip Simulator #2, disco que não tem um #1, executado por uma banda que não é formada por três integrantes. O Satanique Samba Trio quer confundir, e por isso evoca um Tom Zé roqueiro ou um Frank Zappa sambista logo na intricada abertura. É, em termos gerais, um samba. Mas se samba é isso e ao mesmo tempo é o que o Diogo Nogueira faz, está na hora de rever alguns conceitos na MPB. E o SST está aí pra isso: fazer você rever conceitos.



     




3.
Wilson das Neves lançou um disco solo nesse ano, Pra Gente Fazer Mais um Samba, com concepção estética quase idêntica a Que Beleza!, provável último disco dos Ipanemas (Neves é o único vivo, da formação original). O que torna o disco especial é o componente sentimental: enquanto o álbum solo peca pela burocracia, aqui existe uma vontade, um objetivo. Wilson das Neves faz uma bela homenagem ao recentemente falecido parceiro Neco, porém, em "Espelho D'Água", um samba de pura elegância, o compositor chega a provocar arrepios. E faz isso sem nem mesmo usar a potência de sua voz tão característica. Embora não seja brilhante como em Call Of Gods, o lendário baterista prova que ainda sabe entregar composições que provocam alguma reação no ouvinte. Emocionante.



     




2.
PORMETE QUE VAI USAR DORGAS ~ Como dizer para alguém que a grande revelação do ano é uma banda chamada Dorgas? Vão rir da sua cara, provavelmente. Mas vamos lá, a grande revelação do ano é uma banda chamada Dorgas. E Salisme, vejam só, é Clube da Esquina encontrando Radiohead encontrando Broken Social Scene. Acredita? Pois é, uma banda chamada Dorgas, a mais promissora dos últimos 10 anos no Rio de Janeiro. Nada disso é exagero, e os integrantes parecem saber disso: em dado momento, um coro rompe a faixa gritando "quando a casa era vazia era dia de erguer o monumento avalanche!". Então preste atenção, "Salisme" é um monumento. Um monumento avalanche. ~ PORMETE QUE VAI USAR DORGAS



     




1.
"A Emanação dos Sonhos" é extra-terrestre. É dificil escrever sobre e não sofrer a tentação de criar um termo rídiculo... mas será que cabaret-frevo-candomblé-indie-rock-eletrônico não é um termo apropriado? Guilherme Mendonça já tinha feito miséria com Punx, disco de 2008 e um dos melhores da década. Mas o resultado aqui é assustador: com o apoio de Maurício Takara e Curumin, além de um trio percussivo, Guizado criou um monstro sonoro, uma parede infinita de batuque e metais que continua a impressionar mesmo depois de seguidas audições. 
Não dá contar quantas vezes essa expressão foi usada aqui no IndieNation mas devem ter sido poucas. Pois saiba que dessa vez ela será usada com grande justiça: A Emanação dos Sonhos é uma OBRA-PRIMA.



     

Feito Pra Repetir


A única grande composição de Feito Pra Acabar [Slap/Som Livre, 2010], a estréia do compositor paulistano Marcelo Jeneci, funciona como um pequeno desabafo sobre a pouca popularidade de uma certa parcela da nova geração da MPB. A inquietação é perfeitamente compreensível porque o cenário, ao contrário, é bem confuso: onde Jeneci, Maria Gadú, CéU, Marisa Monte, Cérebro Eletrônico, Jorge Vercilo e Arnaldo Antunes, por exemplo, se diferenciam realmente para apresentarem tanta variação em termos de popularidade? "Por Que Nós", a canção em questão, responde pouco. E não pense que a resposta estará escondida em qualquer outra faixa, já que todas passariam despercebidas numa tarde da JB FM...

Nem mesmo a voz de Janeci, tão elegante no meio de arranjos tão equivocados, parece se encaixar. Com opções mais ousadas, Feito Pra Acabar teria potencial para chegar perto de A Vontade Superstar, de Bruno Morais, álbum de influências semelhantes mas executado com mais inteligência, inspiração e coragem. A faixa que o define melhor é, com justiça, a faixa título: são mais de 7 minutos de exageradas cordas que, claramente, foram escritas por alguém com ouvidos treinados por Jaques Morelenbaum. Existe recado maior que o dado por Caetano Veloso? Nem o dinossauro quer mais ser dinossauro, porque se comportar como um logo na estréia?

Volta e meia a imprensa americana se distrai como uma nova salvação do rock n roll e, como correspondência na imprensa brasileira, as salvações da MPB são bastantes comuns. Só não dá para salvar o gênero investindo outra vez na corrente assepsia estética da geração atual. No final, o mais admirável é a sinceridade dessa turma: assim como Êfemera, de Tulipa Ruiz, Feito Pra Acabar diz tudo sobre seu conteúdo já no título.



FICHA TÉCNICA
Artista: Marcelo Jeneci
Álbum: Feito Pra Acabar
Origem: Brasil
Ano: 2010
Gênero: MPB
Escolhas do IN: Por Que Nós
Pra quem gosta de: Arnaldo Antunes, Bruno Morais, Chico Buarque

Melhores de 2010

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