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Resenha | Destroyer - Kaputt


Eu escrevo resenhas para mim. Eu escrevo resenhas para mim.

Não vou me estender sobre motivações da arte. Tem gente que faz arte para si, tem gente que faz arte para crítica, tem gente que faz arte para públicos imensos. E há bons exemplos em todos os casos. Mas vamos partir do princípio que escrever pra si seja o mais próximo do ideal. Daniel Bejar, nesse caso, está próximo do ideal. Na primeira faixa de Troubles In Dreams ele brinca com ouvinte: "Eu te digo o significado disso, talvez não imediatamente... talvez nunca!". Em entrevistas, ele se recusa a dizer o que cada frase, verso ou canção significa. E em "Blue Eyes" diz, claramente, "Eu escrevo poesia para mim, eu escrevo poesia para mim!". Olha que esse "eu" pode ser só o personagem pois sou ator da canção, porém, tudo indica que "eu" é "ele", nesse caso.

Aí você perguntaria: "Porque gravas então, idiota?" (ou "Porque publicas então, idiota?", para mim). Porque de alguma maneira, pessoa nascida e criada no calor do Rio, com pretensões profissionais na área da saúde, se acha muita parecida com pessoa nascida e criada no frio de Toronto, com pretensões profissionais na área das artes plásticas. É o mistério da arte, da identificação com a arte.

Por alguma razão, a forma que Daniel Bejar vê a música é extremamente similar com a ideal (o meu), a perfeição (a minha), ao que eu faria se músico fosse. Serve à experimentação aqui e ali ("Bay of Pigs", estréia estupidamente lo-fi, colaborações com Tim Hecker e Loscil) sem nunca abandonar a melodia, seja torta ("The Bad Arts", "Jackie, Dressed in Cobras"), seja clássica ("European Oils", meu Deus, "European Oils"!). O homem é Stephen Malkmus e é Ivan Lins, também, sente o drama.

Kaputt [Merge, 2011],  LP em que diz que escreve só pra si, é contraditoriamente seu álbum mais popular. Mais popular que Rubies, um disco de canções (tirando os números de abertura e encerramento). A relação atual do ouvinte médio com a música talvez explique o porquê: o mais recente parece corresponder o tesão idiota dessa geração por música sintética mesmo que, na realidade, nem mesmo dê uma piscadela em direção a esse público (idiota). A faixa-título, "Blues Eyes", "Suicide Demo for Kara Walker"... todas dialogam com o indefensável desse mundo, com o que a publicidade não aprovou. A inclusão de "Bay of Pigs", lançada em 2009 e que termina Kaputt como um resumo do que se passou, parece até deboche. Mas a identificação ocorreu. É misterioso, não falei?

- Esse seria meu último post no IndieNation. Eu ia terminar com um conselho (eu vou terminar com um conselho), que daria a toda essa conversa um sentido. Mas não será o último, ou seja, o fim não fará tanto sentido assim. Segue... -

Então, você, jovenzinho que gosta de escrever sobre música: escreva pra si mesmo! Se você fizer bem (e se você já ouviu música suficiente para escrever sobre, é claro), vai funcionar do mesmo jeito.






FICHA TÉCNICA
Artista: Destroyer
Álbum: Kaputt
Origem: Canadá
Ano: 2011
Gênero: Synth-Pop
Escolhas do IN: "Suicide Demo For  Kara Walker", "Bay of Pigs", "Kaputt", "Blue Eyes"
Pra quem gosta de: Roxy Music, Talk Talk, Morrissey

1 Comentário
Henrique Vieira disse...

muito bom que não é o último!
abraço!

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