Entre 2000 e 2001 só se falava em salvação do rock, salvação da música ou coisa parecida... Por mais que a música estivesse muito bem (
Kid A,
Pause,
Feel Good Lost,
Since I Left You, último disco de estúdio do Aphex Twin, Outkast, Slum Village e Jay-Z renovando o hip-hop...), muita gente insistia que algo precisava ser salvo. Falando em caráter de urgência, nada mesmo precisava ser salvo mas os Strokes salvaram alguma coisa, sim: a entidade "banda" na música pop, aquela inspiração no jovem ouvinte, um sentimento bastante parecido ao que o Nirvana gerou, 10 anos antes. Sendo assim, é bastante curiosa a situação observada em
Angles [RCA, 2011], um álbum em que todos os integrantes parecem extremamente aborrecidos pelos simples fato de estar numa banda.
Fosse só um disco feito por obrigação,
Angles seria somente medíocre, mas não é:
Angles é somente muito ruim. E isso é devido a canalhice latente das suas composições. Veja se não é comportamento típico do canalha: de primeira, a banda oferece o que o seu público-alvo gostaria de ouvir (o single "Under Cover of Darkness", um pastiche de Strokes mais desbotado do que qualquer canção do Moptop). E depois, seu verdadeiro comportamento atual, preguiçoso, grosseiro e relaxado. É absolutamente legítimo renovar o trabalho com outras influências, mas o que se ouve aqui é apenas um troca de instrumentos: uma drum-machine aqui (pra quê?), um sintetizador acolá, e a essência é a mesma de
Room on Fire.
Os dois únicos momentos em que o argumento da renovação parece ser posto em prática aparecem nas faixas "Two Kind Of Hapiness" e "Life Is Simple in the Moonlight". A primeira foge da comédia oitentista e, apesar da preguiça, não é apenas uma pálida imitação de Cars. A segunda, inconstante, até mostra uma certa elegância emprestada do Roxy Music, mas se perde num refrão deslocado. Os outros destaques são os negativos, é claro: "You're So Right" (you're soooo wrong), lado-Z do Radiohead, e "Games", algo mais adequado ao retorno do Duran Duran.
A voz de Julian Casablancas, mais do que qualquer coisa no Strokes, representa muito daquele início de década. Com exceção do primeiro single, nem mesmo aquela voz parece se encaixar em tamanha morosidade. O cansaço e o aborrecimento, perceptível nas entrevistas e, principalmente, nos 34 sofríveis minutos de
Angles, mostram que os Strokes falhou no ensinamento da lição completa. Se, em 2001, a banda ensinou como é bom estar numa banda, em 2011 eles não conseguiram explicar qual é a hora certa de parar.
Escolhas do IN: "Under Cover of Darkness", "Life Is Simple in the Moonlight"
Pra quem gosta de: The Cars, Duran Duran, Vampire Weekend