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Round and Round and Round


Resenha | Girls - Father, Son, Holy Ghost


* Originalmente publicado Na Fita

Quando “Hellhole Ratrace” começou a ganhar elogios nos blogs americanos, na metade de 2009, as matérias sobre o Girls eram sempre ilustradas por uma foto do líder, Christopher Owens, usando uma camiseta do Nirvana. À época, parecia curioso, se combinado ao humor do single, melancólico-resignado, com instrumentação shoegazer. Com o álbum completo, a imagem parecia fazer um pouco mais de sentido, à medida que a dupla revelava, não totalmente, certa sintonia com o rock americano dos anos 90, incluindo o rock de moleques que usavam camisa do Nirvana (mesmo que metaforicamente).Agora, no segundo disco, fica ainda mais claro: o Girls é mesmo uma banda de rock americana dos anos 90.

Por isso, a aclamação de um disco de rock classicista como Father, Son, Holy Ghost [True Panther/Matador, 2011] pelas publicações musicais modernas é de certa maneira surpreendente, levando em conta o aparente asco que jornalistas do tipo tem da geração X. Talvez porque Owens entregue ao ouvintes canções de reverência disfarçada, à moda das bandas de rock da época (não estamos falando de Black Crowes), como as relações entre Neil Young e Built to Spill ou Pearl Jam, Pixies e Nirvana, Black Sabbath e Soundgarden: música claramente referenciada mas com a cara do momento em que foram criadas. Se a habilidade serve para criar números de personalidade como “Vomit” (que começa como uma reprodução fajuta de “Street Spirit” e ressurge na esperteza da combinação do vocalise gospel/RnB com distorção) e “Love, Like a River” (blues de natureza similar porém mais adocicado), porque não usar da mesmas armas pra salvar baboseiras como “Magic”, “Saying I Love You” e “Jamie Marie” da irresistível modorra?

 Uma explicação talvez passe por uma suposta crença do compositor de que a veracidade da suas tristezas (Owens, você já deve saber, poderia facilmente ser um personagem do cinema) seja suficiente para tornar sua música real. E não é. Mesmo que a lírica melancólica encontre justificativa numa vida difícil, a música que, por diversas vezes, resvala na paródia, não tem lá muita explicação.

 Usando as duas maiores influências da dupla, Built to Spill e Spiritualized, para tentar encontrar uma outra justificativa bem mais fantasiosa, pode-se dizer que a intenção de ser uma banda dos anos 90 foi levada à termos literais: a música aqui soa como a dessas bandas em seus discos mais recentes, vencendo mas usando o regulamento. Contudo, Christopher Owens e Chet White não tem os mesmos 30 anos de estrada. Talvez se os dois se dessem conta disso, Father, Son, Holy Ghost seria mais bem sucedido.




FICHA TÉCNICA
Artista: Girls
Álbum: Father, Son, Holy Ghost
Origem: EUA
Ano: 2011
Gênero: Rock
Escolhas do IN: "Love, Like a River", "Vomit"
Pra quem gosta de: Rolling Stones, Spiritualized, Stone Roses

Irmãs #2

ANIMAL COLLECTIVE - FIREWORKS

ROD STEWART - YOU'RE IN MY HEART

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CSS - LET'S MAKE LOVE

ROD STEWART - DA YA THIN I'M SEXY

JORGE BEN - TAJ MAHAL


Obs: Nessa tag eu coloco músicas com melodias parecidas. No último caso, pras 2 pessoas que não sabem, é um plágio mesmo: Rod Stewart fez acordo judical e pode tocar a música dando uns cascalhos pro Jorge Ben (Jor).


Curtas | The Field, Youth Lagoon, Stevie Jackson

THE FIELD - LOOPING STATE OF MIND [Kompakt, 2011]
Gênero: House/Techno
A coisa techno que o Field faz tem vários nomes, a depender da publicação, mas sua melhor definição é, obviamente, "looping state of mind". E isso é algo entre o Gas e o Seefeel (o dos anos 90), algo mais definido e bem realizado (literalmente falando, mais desencanado, menos envergonhado de ser tecno) do que Pantha du Prince. Isso não quer dizer ser mais elementar: esse é um álbum mais rico que a badalada estréia From Here We Go Sublime, em que todo disco formava um bloco uniforme. Looping State of Mind é, em cada faixa, um temperamento diferente (destaque pro insano em "Sweet Slow Baby" e o celebratório em "Burned Out", mais alinhada com o humor da debut e de Yesterday and Today). É a obra que pode levá-lo pra fora do nicho porque é, por várias razões, o melhor trabalho de Axel Willner.





STEVIE JACKSON - I CAN'T GET NO (STEVIE JACKSON) [Banchory, 2011]
Gênero: Indie Pop
 Stevie Jackson é aquele mesmo, do Belle and Sebastian, aquele mais engraçadinho e menos dramático que Stuart Murdoch, o integrante mais conhecido. Na sua estréia solo e faz o mesmo que faz em grupo com uma única diferença: este é um disco, digamos, solo... Como reflexo da personalidade do artista, I Can't Get No (Stevie Jackson) - belíssimo trocadilho - é um álbum engraçadinho e menos dramático do que os capitaneados por Murdoch. E, por isso, sem a sutileza e as variações de humor dos melhores discos da banda escocesa. Jackson tenta compensar com letras espertas ("Press Send" é bem engraçada) e um divertidíssima falta de vergonha para a auto-depreciação. Funciona, aqui e ali, mas não tornam mais fáceis os aparentemente longos 40 minutos de duração. Como curiosidade, aparecem Kurt Dahle, John Collins (New Pornographers) e Katrina Mitchell (The Pastels) como convidados.





YOUTH LAGOON - THE YEAR OF HIBERNATION [Fat Possum, 2011]
Gênero: Indie Pop/Lo-Fi
The Year Of Hibernation é disco tão pequeno, na sua atitude, na sua forma e no seu volume, que parece reafirmar do desejo do artista explícito no título. Então, dizer que a estréia do jovem Trevor Powers é tímida não é relativizar a falta de talento: eis aqui um disco tímido na acepção mais utilizada da palavra. É o que se chamava de indietronica em 2005, mas feito "in the basement" com três ou quatro filtros de reverb do Ableton (porque estamos em 2011 e Trevor é tímido, não burro). Que me perdoem os autistas (e a AMA - Associação dos Amigos do Autista - não me processem, ok?), mas depois de tantos filhos, o Postal Service gerou mais um. Autista.



ProBlogger


Resenha | Destroyer - Kaputt


Eu escrevo resenhas para mim. Eu escrevo resenhas para mim.

Não vou me estender sobre motivações da arte. Tem gente que faz arte para si, tem gente que faz arte para crítica, tem gente que faz arte para públicos imensos. E há bons exemplos em todos os casos. Mas vamos partir do princípio que escrever pra si seja o mais próximo do ideal. Daniel Bejar, nesse caso, está próximo do ideal. Na primeira faixa de Troubles In Dreams ele brinca com ouvinte: "Eu te digo o significado disso, talvez não imediatamente... talvez nunca!". Em entrevistas, ele se recusa a dizer o que cada frase, verso ou canção significa. E em "Blue Eyes" diz, claramente, "Eu escrevo poesia para mim, eu escrevo poesia para mim!". Olha que esse "eu" pode ser só o personagem pois sou ator da canção, porém, tudo indica que "eu" é "ele", nesse caso.

Aí você perguntaria: "Porque gravas então, idiota?" (ou "Porque publicas então, idiota?", para mim). Porque de alguma maneira, pessoa nascida e criada no calor do Rio, com pretensões profissionais na área da saúde, se acha muita parecida com pessoa nascida e criada no frio de Toronto, com pretensões profissionais na área das artes plásticas. É o mistério da arte, da identificação com a arte.

Por alguma razão, a forma que Daniel Bejar vê a música é extremamente similar com a ideal (o meu), a perfeição (a minha), ao que eu faria se músico fosse. Serve à experimentação aqui e ali ("Bay of Pigs", estréia estupidamente lo-fi, colaborações com Tim Hecker e Loscil) sem nunca abandonar a melodia, seja torta ("The Bad Arts", "Jackie, Dressed in Cobras"), seja clássica ("European Oils", meu Deus, "European Oils"!). O homem é Stephen Malkmus e é Ivan Lins, também, sente o drama.

Kaputt [Merge, 2011],  LP em que diz que escreve só pra si, é contraditoriamente seu álbum mais popular. Mais popular que Rubies, um disco de canções (tirando os números de abertura e encerramento). A relação atual do ouvinte médio com a música talvez explique o porquê: o mais recente parece corresponder o tesão idiota dessa geração por música sintética mesmo que, na realidade, nem mesmo dê uma piscadela em direção a esse público (idiota). A faixa-título, "Blues Eyes", "Suicide Demo for Kara Walker"... todas dialogam com o indefensável desse mundo, com o que a publicidade não aprovou. A inclusão de "Bay of Pigs", lançada em 2009 e que termina Kaputt como um resumo do que se passou, parece até deboche. Mas a identificação ocorreu. É misterioso, não falei?

- Esse seria meu último post no IndieNation. Eu ia terminar com um conselho (eu vou terminar com um conselho), que daria a toda essa conversa um sentido. Mas não será o último, ou seja, o fim não fará tanto sentido assim. Segue... -

Então, você, jovenzinho que gosta de escrever sobre música: escreva pra si mesmo! Se você fizer bem (e se você já ouviu música suficiente para escrever sobre, é claro), vai funcionar do mesmo jeito.






FICHA TÉCNICA
Artista: Destroyer
Álbum: Kaputt
Origem: Canadá
Ano: 2011
Gênero: Synth-Pop
Escolhas do IN: "Suicide Demo For  Kara Walker", "Bay of Pigs", "Kaputt", "Blue Eyes"
Pra quem gosta de: Roxy Music, Talk Talk, Morrissey

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